Escalada de preços e escassez de produtos é o “novo normal”

PorNuno Andrade Ferreira,6 nov 2021 8:30

Situação deverá manter-se nos próximos meses. Dissonância entre oferta e procura e problemas estruturais explicam situação que ameaça a recuperação económica mundial.

Os preços sobem rapidamente, alguns produtos são difíceis de encontrar e demoram a ser repostos. A crise nas cadeias de abastecimento está a afectar o mundo e a deixar quase todos “à beira de um ataque de nervos”.

O problema é complexo, mas resume-se nesta ideia: há um desajuste entre oferta e procura, em grande medida devido aos confinamentos de 2020 e ao aumento rápido do consumo em 2021. Existem dificuldades em toda a linha, da extracção de matérias-primas à indústria transformadora, passando por armazenagem e distribuição, mas a falta de contentores para o transporte marítimo está a ter um papel decisivo.

Elisabete Soares, professora universitária e gestora com especialidade em governança, sustentabilidade social e desenvolvimento, assinala que muitos dos problemas já existiam antes da pandemia.

“A escassez ou falta de navios e contentores eram cíclicos e sentidos em algumas zonas. Estudiosos do sector da logística já haviam identificado esta problemática. A paragem da economia, em 2020, e o confinamento fez com que muitos contentores tenham ficado em vários portos, sem que pudessem seguir o seu curso normal”, ilustra.

No final de Outubro, a directora-geral da Organização Mundial do Comércio destacou a falta de preparação das companhias de navegação. “Reduziram a disponibilidade de contentores, que foram deixados nos lugares errados. Agora, faltam contentores”, disse Ngozi Okonjo-Iweala.

O economista Paulino Dias recorda que parar a produção é sempre mais fácil que retomá-la.

“Com a covid-19, essa cadeia logística acabou por ser bastante perturbada, quer pelas medidas adoptadas pelos países, em termos de trânsito transfronteiriço de pessoas e mercadorias, quer pelo encerramento de fábricas e de operações. A recuperação é mais difícil e leva mais tempo do que suspensão ou diminuição”, comenta.

Não há como escapar. João Santos, presidente da SOCIAVE, empresa agro-industrial na área da avicultura, aponta para a duplicação de tarifas de transporte e dificuldades de aprovisionamento.

“Importamos muita matéria-prima e, para além da dificuldade na aquisição dos produtos, temos aumentos substanciais do custo de transporte. Um contentor normal, pelo qual se pagava cento e poucos contos, neste momento, paga-se duzentos e tal. Para um contentor refrigerado, pagava-se à volta de 210 a 220 contos e, neste momento, paga-se quatrocentos e tal. O milho, a soja, tudo subiu”, resume.

O Presidente da Associação dos Empresários Chineses em Cabo Verde, Paulo Pan, também nota a tendência de agravamento de preços e confirma que, apesar da recuperação da procura, a oferta não está ao nível desejado.

“Muitas coisas aumentaram o preço, principalmente o frete do transporte. Cada contentor custa agora cerca de três vezes mais. A mercadoria da China também está a aumentar. Está muito mais difícil”, desabafa.

Rafael Vasconcelos, gestor ligado à empresa de distribuição alimentar Vasconcelos Lopes, antecipa o impacto da crise na economia cabo-verdiana.

“É uma problemática mundial. Temos de realçar que, na nossa área, trabalhamos com commodities – arroz, açúcar, óleo, etc. – que vão sofrer uma alteração do preço, o que vai impactar, obviamente, a nossa economia”, comenta.

Há três semanas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em baixa a previsão de crescimento da economia mundial para 2021, situando-a em 5.9% (estava nos 6%). As disparidades na vacinação condicionam as perspectivas da instituição, mas as falhas na cadeia de abastecimento também têm o seu papel. A directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, considera que o mundo vive um “momento particularmente desafiador” e a que a ameaça da inflação é real.

Conforme dados do Instituto Nacional de Estatística, em Setembro, a taxa de variação acumulada do Índice de Preços no Consumidor situava-se nos 3,1% (2,7% de variação homóloga e 0,3% de variação mensal).

Paulino Dias destaca a exposição de Cabo Verde a choques externos.

“Não influenciamos preços internacionais, somos influenciados pela tendência de evolução de preços, sobretudo porque importamos 80% do que consumimos. Quando há um aumento no mercado exterior, esse aumento é transmitido, quase que instantaneamente, para a economia nacional”, afirma.

À pressão inflacionista externa, junta-se a perspectiva de mais um mau ano agrícola.

“A redução da oferta de produtos de produção local, sobretudo agrícolas, vai colocar uma pressão inflacionista ascendente, com aumento substancial generalizado de preços”, antecipa.

A agência de notação finaceira Moody’s vislumbra “nuvens negras” no horizonte, capazes de perturbar a recuperação económica global. Apesar de se esperar uma normalização de preços algures em 2022, o Banco Mundial admite que alguns picos poderão não ser transitórios.

Perante este quadro, Elisabete Soares realça a necessidade de não se deixar tudo na “mão invisível do mercado”.

“Nestas situações, dependemos de políticas e os governos têm de promover a equidade e eficiência na distribuição de recursos”, apela.

Reunidos em Roma, no fim-de-semana, os líderes do G20 comprometeram-se a um reforço da cooperação, para uma resposta imediata aos problemas nas cadeias de abastecimento, seguida de um fortalecimento do ecossistema, num plano de longo prazo.

Com Lourdes Fortes

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1040 de 3 de Novembro de 2021.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,6 nov 2021 8:30

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  25 jan 2022 23:20

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