Presidente do Grupo Banco Mundial sinaliza risco de ‘década perdida’ em África

PorNuno Andrade Ferreira,29 mai 2021 7:38

David Malpass recorda impacto “historicamente grande” da pandemia nos mais vulneráveis

O Grupo Banco Mundial (GBM) está a trabalhar “ar­duamente” para evitar o risco de uma ´década perdida’ no continente africano. Garantia deixada pelo presidente da instituição, David Malpass, no final da semana passada, durante um encontro com jor­nalistas da África Ocidental e Central. Vacinas, dívida e economia são áreas de acção prioritárias.

A consciência de que a co­vid-19 pode originar, para a generalidade dos países afri­canos, atrasos e retrocessos mais do que circunstâncias começou a consolidar-se nos últimos meses, perante o ar­rastar da crise sanitária, com todos os seus danos transver­sais a outras áreas e face às disparidades na distribuição das vacinas.

Já este mês, a UNICEF explicou que os impactos da pandemia serão assumidos pelas crianças africanas, com o seu futuro.

Em Paris, na semana passada, durante a cimeira França-África, a directora-exe­cutiva do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, reforçou a necessi­dade de uma “mobilização glo­bal para ajudar África”.

Questionado pelo Expresso das Ilhas, David Malpass é claro.

“A própria covid foi um re­vés historicamente grande, particularmente prejudicial para os mais pobres e mais vulneráveis. Desse ponto de vista, reconhecemos que se­rão necessários anos para re­cuperar algumas das perdas”, refere.

Sobre a campanha global de vacinação contra o SARS-CoV-2, e numa altura em que, contas da Organização Mundial de Saúde, 70% das doses já administradas fo­ram aplicadas em apenas 10 países, Malpass apela a uma melhor distribuição de imuni­zantes.

“Temos de iniciar a vaci­nação em mais países e isto significa termos fornecimen­to e significa aqueles que têm excesso de doses libertarem essas doses. Também significa utilizar programas que estão prontos, como os programas do Banco Mundial, para levar a vacinação às pessoas em to­dos os países. Este é um ponto de partida fundamental”, ex­plicou ao Expresso das Ilhas.

Cabo Verde é um dos seis países africanos com progra­mas de financiamento aprova­dos junto do Banco Mundial para compra de vacinas. No total, até ao momento, 38 es­tados do continente submete­ram dossiers para beneficiar dos 12 mil milhões de dólares disponibilizados para as cam­panhas de vacinação.

Dívida e economia

Em Abril, a agência de no­tação financeira Scope Ratings alertou para a necessidade de se definir um modelo de alívio das dívidas africanas capaz de as tornar sustentáveis, para lá das moratórias que, no limite, mais não fazem do que adiar o problema.

O G20 foi rápido no adia­mento dos pagamentos, mas mostra-se menos disponível para um alívio definitivo. A actual estrutura das dívidas complica a sua eventual rene­gociação, que terá que contar com o envolvimento do sector privado.

“É necessária uma solu­ção permanente para reduzir o stock da dívida nos países mais pobres. O Banco Mundial e o FMI estão a coordenar o apoio ao G20 na implemen­tação do Quadro Comum [de Tratamento da Dívida]”, nota o presidente do GBM.

Lançado em Novembro, o Quadro Comum é um pas­so em frente face à Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI, na sigla em in­glês), antes disponível. O foco, refere David Malpass, passa por evitar erros do passado.

“Muitas vezes, o termo ‘década perdida’ é aplicado à América Latina, nos anos 80. Estamos a esforçar-nos para evitar a situação que ocorreu nessa crise em que, ano após ano, as dívidas foram reesca­lonadas, empurradas para o futuro, mas nunca realmente reduzidas. Assim, o novo in­vestimento não entrou porque se percebeu que ia acabar por ser utilizada para pagar dívi­das contraídas anteriormen­te”, recorda.

No capítulo da economia, Malpass assinala oportuni­dades que os países africanos poderiam aproveitar de forma mais efectiva.

“Muitos países poderiam estar a fazer coisas em termos de digitalização, em termos de facilitação do comércio, na unificação das taxas de câmbio, na melhoria do clima empresarial, nas infra-estru­turas”, comenta.

No caminho para a recupe­ração e num cenário pós-co­vid, o GBM quer que as alte­rações climáticas seja parte da equação. Em 2030, na África Ocidental e Central, mais 26 milhões de pessoas poderão estar abaixo da linha da po­breza, devido às mudanças nos padrões do clima.

Desde o início da pandemia, o Banco Mundial já disponibi­lizou mais de 24 mil milhões de dólares a países africanos, através de vários mecanismos de resposta à situação sanitá­ria e económica.

Perante a complexidade do actual momento e consciente dos desafios que se avizinham, o apelo de David Malpass re­sume-se numa frase: “encora­jo cada país a trabalhar para evitar uma década perdida, que ainda é um risco para o continente”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1017 de 26 de Maio de 2021.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,29 mai 2021 7:38

Editado porAndre Amaral  em  4 ago 2021 23:21

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