COVID-19 : Três choques: saúde, economia e dívida

PorNuno Andrade Ferreira,2 mai 2020 8:25

Economista cabo-verdiano no BAD refere importância da diversificação económica e refere-se a África como “a grande incógnita”.

Os impactos económicos mundiais da pandemia de COVID-19 serão significativos, com alguns países, incluindo Cabo Verde, particularmente expostos aos efeitos da mais que certa recessão.

Esta semana, a directora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, declarou que a fuga de capitais de países emergentes, desde o início da crise sanitária, ascende a 100 mil milhões de dólares.

“Estamos muito preocupados com os países emergentes e em desenvolvimento”, disse durante um seminário promovido pelo think tank Atlantic Council.

A instituição financeira, com sede em Washington, já veio prever, para este ano, um recuo da economia mundial na casa dos 3%. A confirmar-se, será a maior recessão desde a grande depressão, em 1929.

Ainda assim, e a partir de Luanda, onde é representante do BAD, o economista cabo-verdiano Joseph Martial Ribeiro modera o pessimismo – sem perder noção da gravidade do momento – referindo que, no caso da actual crise, não houve uma quebra de confiança em relação ao sistema económico mundial.

“Para vários especialistas, o risco de ser a maior recessão de sempre é fraco. O que ocorreu há 100 anos (em 1929) foi uma quebra de confiança no sistema económico, o que não existiu neste caso. Há uma quebra da actividade económica, mas os governos e instituições multilaterais estão a agir de forma a estimular a economia, não há quebra de confiança e isso faz com que o risco de chegarmos a uma situação como a grande depressão seja bastante limitado”, estima.

Incerteza

O director-geral da Organização Mundial da Saúde(OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, tem reiterado, de forma incessante, que a pandemia está “longe de acabar”, o que antecipa a continuação da incerteza por vários meses.

Perante este cenário, os países, inclusive africanos, multiplicam medidas que injectam liquidez nas economias e nas famílias, facilitando o acesso ao crédito e reforçando os apoios sociais. Joseph Martial Ribeiro alerta que a capacidade não é infinita.

“A grande incógnita, neste momento, é o continente africano, mas até agora os sistemas financeiros têm reagido muito bem. É certo que todos os países, incluindo os países desenvolvidos, vão ter de lidar com o aumento da divida, que vai ser também um choque muito importante, o terceiro choque, depois dos choques sanitário e económico”.

Em média, e segundo o FMI, os países ricos estão a investir o equivalente a 6% do seu Produto Interno Bruto em medidas de estímulo. Esse valor desce para a casa dos 2% nos emergentes. De resto, o Banco Mundial (BM) e o Fundo Monetário Internacional convergem em como a pandemia poderá cavar o fosso entre ricos e pobres e favorecer o aumento da pobreza extrema, algo que aconteceria pela primeira vez desde 1998. A estimativa do BM é que mais 40 a 60 milhões de pessoas passem a viver com menos de 1,90 dólares por dia.

Para os países altamente dependentes da exportação petrolífera, e com os preços em mínimos históricos, a crise é dupla. Na mesma medida, e como sublinha Joseph Martial Ribeiro, também nos estados que têm uma economia baseada no turismo, o impacto será maior. É o caso de Cabo Verde.

“A contribuição do turismo no PIB é muito elevada e acho que já há a consciência de que é necessário reinventar o modelo de crescimento, talvez olhando para a modernização da agricultura, fomentando a indústria. Se produzirmos bens que têm procura a nível internacional, e se diversificarmos, ficamos menos vulneráveis”, comenta o economista.

A Organização Mundial do Turismo (OMT) prevê um retrocesso de 20 a 30% no turismo internacional em 2020, face aos números de 2019, o que se traduziria em perdas equivalentes ao crescimento gerado pelos últimos cinco a sete anos de actividade. Para se ter um termo de comparação, a crise de 2008 provocou uma queda de 4% neste segmento económico.

Na última semana, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) alertou para o impacto da quebra do turismo em pequenos estados insulares em desenvolvimento. A UNCTAD calcula que Cabo Verde precisará de assistência financeira avaliada em 131 milhões de dólares.  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 961 de 29 de Abril de 2020.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,2 mai 2020 8:25

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  9 fev 2021 23:20

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