RTC refém de um misterioso Plano Estratégico

PorJosé Maria Rosário,30 dez 2019 6:16

“Nós não conhecemos absolutamente nada desse Plano”. Carlos Santos, presidente da AJOC.

Duas características marcaram a mentalidade mágica do regime precedente: a banalização do conceito “estratégia” e a psicose da criação de instituições.

Por outro lado, o pragmatismo testado no município da Praia foi a bandeira de Ulisses Correia e Silva nas eleições de 2016.

Todavia, a recente criação do Instituto do Desporto (actividade que devia estar nas mãos dos empreendedores desportivos), retirar agentes culturais do terreno para os tornar funcionários e a proliferação de planos rotulados de “estratégicos” são, entre outros, sintomas preocupantes de que o virus daquela mentalidade, que se pretendia superar, mantém-se resiliente.

A Administração Pública continua a engordar cada vez mais, permanecendo sentada no mesmo lugar.

Não obstante, sistemáticas reivindicações entraram num espiral que parece não ter fim e ninguém tem coragem de dizer basta. Eis que todos os dias se ouve falar de novos estatutos e planos de cargos, carreiras e salários, sempre na mira do “quero mais”. Em contrapartida, da produtividade e qualidade ninguém se lembra e nem de “apresentar soluções para estes aumentos”.

Chegou-se a aprovar, em Fevereiro passado, um plano estratégico para a Radiotelevisão Cabo-verdiana (RTC), sem que o exército que o implementaria tivesse o mínimo conhecimento de como movimentar-se no terreno.

Agora, o Ministro que tutela a Comunicação Social, Abraão Vicente, vem afirmar que o tal plano não vai ser implementado por não ser prioridade do governo e que competeria ao Ministério das Finanças proporcionar o seu financiamento.

Documento esse mantido no segredo dos deuses, como sendo “algumas ideias” e que afinal contemplava 333 páginas e “alguns trabalhadores” foram ouvidos.

Quanto à Associação e Sindicato representante dos jornalístas a AJOC, o seu presidente Carlos Santos, disse ” …vamos voltar à carga, vamos querer conhecer este plano estratégico para a RTC, todos os meandros desta reestruturação”.

Se as peças do xadrez, que vão inspirar e ter acções no terreno, desconhecem as entranhas do plano, como é que vão ter “espírito de compromisso, confiança e cooperação voluntária” na sua implementação?

Nessa confusão instalada é de se questionar o que tem sido o papel do Conselho de Administração: uma equipa sem ideias próprias, submissa à tutela, inexperiente e encurralada num oceano de tubarões vermelhos. De notar a forma atabalhoada como tentou impor um certo código, como que se estivesse a gerir um orfanato.

Louvável a maturidade dos jornalistas, que em vez de turbulência (como se tem verificado nalgumas casernas), reagiram democrática e responsavelmente.

Por outro lado, este episódio não é senão a ponta do iceberg da gangrena de que padece as nossas instituições e que tem sido uma armadilha fatal aos sucessivos governos: o secretismo.

Qualquer processo de reestruturação tem sido sempre concebido no gabinete, seguido de um workshop ou algo que se convencionou chamar socialização, em simultâneo com um “show off”. O tutano “das coisas” fica sempre no silo.

O secretismo é, pois, um dos cancros responsáveis pelas disfunções que caracterizam a ineficácia e ineficiência do sector público estatal, com reflexos na tão propalada morosidade da justiça: como é possível, por exemplo, os juizes e advogados comprometerem-se com uma reforma da justiça em cujos contornos não participaram e sequer foram, previamente, ouvidos: como uma equipa de futebol que entra no campo exigindo-se-lhe o melhor, ficando, todavia, a estratégia do jogo no tino do treinador.

O monopólio das informações é uma cultura que vem do tempo colonial e está profundamente enraízado na nossa Administração Pública, tendo sido sempre um símbolo de poder. Mudar esta mentalidade apenas com slogans e apelos é como cantar morna ao boi para adormecer.

Nesta novela da RTC, falida desde 2005, só os ingénuos acreditam que o Ministro da Cultura e Indústrias criativas abdicar-se-á do projecto que visa a “revisão dos seus modelos de governação, organização e gestão”.

Com tanto dinheiro a adormecer nos bancos, meritocracia, competência e estrategos disponíveis por aí, não é possível pensar na sustentabilidade do negócio? Continuar a injectar dinheiro “frio”, sem um tratamento de choque, fica-se no que sempre foi feito no passado: curar os sintomas em vez de atacar as causas.

O “Viking” Abraão Vicente, agora com as divisas da morna, tem o bom senso suficiente e têmpera para lidar com o fogo. Conhece bem a casa e nada o impedirá, desde que se mantenha no “office”, de acrescentar obra às obras que vem fazendo e não se deixar queimar pelo quarto poder.

Caso persistir alguma dúvida, contrapõe-se uma certeza: Olavo Correia, que tem saído ileso de sistemático fogo cruzado dos detractores do regime, seguramente, não será o bode expiatório deste imbróglio.

Se a oposição, que continua sem Norte, morder o isco, o tiro sair-lhe-á pela culatra.

O dinheiro há-de aparecer no “time certo”, pois, não há nenhum governo neste planeta, que vai a eleições de costas viradas para a comunicação social.

Enquanto isso, o precioso tempo vai passando, algumas políticas tardam em serem reajustadas e os novos aposentados, aproveitando a ingenuidade dos príncipes, estão progressivamente, roubando espaço aos jovens quadros.

A severidade da estiagem tem sido gerida com prudência, mas não é de se ignorar alguns avisos no horizonte: “Silencia-se a fome, mesmo que esteja a acontecer.”

É imperioso focalizar-se na realidade e atacar os problemas concretos do país, em vez de mergulhos apressados em miragens “azuis” e planos utópicos apenas para o inglês ver.

“Para a elite dirigente distraída pelas lutas partidárias não há consciência clara da realidade de se ter há muito atingido o limite da aplicação de certas políticas e da necessidade de agir para sair da armadilha”. Humberto Cardoso, in editorial do Expresso das Ilhas.

Dizia o poeta que a “rosa mesmo que mudar de nome continua a cheirar bem”, pelo que é preciso - a cidadania fiscal assim o exige - um levantamento e avaliação quantitativa e qualitativa de tantos planos e estudos concebidos, ao longo dos tempos, dizendo sempre as mesmas coisas com verbos diferentes.

Por exemplo, andamos a gatinhar em termos de museus e já se ouve por aí ruídos de um plano estratégico: ao invés de mãos na massa, perdemos tempo a sonhar ouvindo a criança falar ainda no ventre da mãe.

Vive-se o caricato de ser o assessor externo a vir alertar à navegação que afinal“já existiam planos, mas estavam todos na gaveta, não estavam a ser utilizados. Porquê? Porque não tinham sido feitos de forma participativa e com envolvimentlo das diferentes instituições”.

Nesse mega negócio de planos, estudos e repetição de estudos, os “minis de oiro”, não importando o clube onde jogam, vão fazendo a festa.

Estando os deputados engalfinhados na guerra de Pirro, não têm consciência da sangria que esses mimos (eleitos como panaceia para todos os males do povo das ilhas) representam para o erário público.

Ninguém desejaria sentir na pele a pressão que o Ministro das Finanças vem enfrentando, com até os mais sensatos e comedidos a brigar, assertivamente, os tostões que lhes cabem no bolo comum.

Só se espera que Olavo Correia não abandone o navio, como alguém fez em 2001, deixando em apuros o então piloto e eis que volta a dar aulas, esquecendo-se da reprimenda do vigário a ensinar o padre dar missa.

Já é altura de os governantes começarem a convidar os próprios consultores a pôr na prática as estratégias e o respectivo quadro institucional que visionam, para evitar que na dança entre a situação e a oposição, os réus e ao mesmo tempo juízes, venham a vangloriar-se: “…apesar de ter existido um plano estratégico este nunca foi assumido estrategicamente”.

“É preciso um poema diferente para o povo das Ilhas”.

Se continuarmos acomodados “ao comboio de Louçã” que sempre chega atrazado, mas chega, a nossa viagem rumo ao país desenvolvido não há-de ser tarefa fácil: a primeira República anunciou rumo aos “Dragões da Ásia” e ficamos encalhados; de seguida tínhamos uma década para chegar às Canárias e ficamos atrelados às ajudas externas; “depois da corda esticada seguindo o tipo de políticas enquadradas no modelo de reciclagem”, transitamos do estratégico para “planos masters”, que hão-de levar o turismo a todas as ribeiras e cutelos (a que custos e a beneficiar, em primeira mão, a quem?), antes de chegar ao José em Rincão ou à Maria, na Garça, na Ilha das Montanhas.

Todavia, a esperança é última coisa a morrer. Finalmente, encontramos o rumo certo em direcção às paradisiacas Ilhas Mauricias. Mais vale tarde do que nunca. “God Bless Cabo Verde”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 943 de 23 de Dezembro de 2019. 

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Autoria:José Maria Rosário,30 dez 2019 6:16

Editado porSara Almeida  em  3 jul 2020 23:21

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