EDITORIAL: Preparar-se para o impacto do coronavírus

PorA Direcção,16 mar 2020 6:47

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As consequências a todos os níveis do surto do coronavírus, Covid-19, estão a se revelar piores do que inicialmente se esperava. Nesta última semana assistiu-se a uma evolução dramática na disseminação do vírus. Não mais confinado a partes da China e a pequenos surtos na Coreia do Sul, Japão e Irão, o Covid-19 irrompeu-se nestes dias na Itália a ponto de todo o país ter sido posto em quarentena e vários caos surgiram noutros países da Europa.

Ao mesmo surgiram focos nos Estado Unidos e Brasil e casos mais isolados em alguns países da África subsaariana como o Togo, a Nigéria, os Camarões e também o Senegal. Parece inevitável que a epidemia se transforme numa pandemia com impacto tremendo em todo o mundo e particularmente onde o sistema de saúde não tem grande capacidade de resposta e a pobreza associada a problemas de habitação tornam difícil pôr em prática recomendações para contenção do vírus. A esperança é que com a subida da temperatura à medida que se aproxima o Verão no hemisfério Norte o vírus se torne menos activo e dê uma trégua no processo de contágio de forma a permitir que se desenvolva vacinas que o possam combater.

Já é óbvio o impacto que o vírus está a ter na economia e na interacção social e cultural das pessoas. Nos últimos dias viu-se o movimento negativo em todas as principais bolsas de valor a indiciar incertezas quanto ao futuro e antecipar uma possível recessão. Gita Gopinath, a economista-chefe do FMI num texto publicado no site dessa organização, fala de choques na oferta e na procura. Segundo a mesma, a convergência de disrupção na produção e no fornecimento de produtos intermédios com quebra na demanda dos consumidores e nos investimentos pode lançar a economia mundial numa recessão mundial similar à provocada pela crise financeira de 2008. De entre os sectores afectados, claramente que os da aviação e do turismo serão os primeiros a sofrer. Prevêem-se perdas de receitas na aviação entre 60 a 110 mil milhões de dólares. No turismo espera-se uma contracção nas receitas com perdas entre 30 a 50 mil milhões de dólares. E globalmente o sector de hospitalidade incluindo hospedagem, restaurantes, bebidas, parques recreativos, cruzeiros e outros transportes será o que mais irá ressentir das quarentenas, da proibição de eventos públicos e fecho de escolas, museus e outros sítios que possam aglomerar um elevado número de pessoas.

As dificuldades provavelmente não ficarão por aí. Ter-se-á ainda de contar com desenvolvimentos inesperados como o já em progresso na guerra dos preços de petróleo desencadeada pela Arábia Saudita. E sempre vai aparecer quem queira aproveitar das fragilidades criadas pela epidemia do coronavírus para se reposicionar no quadro das relações comerciais internacionais e ganhar vantagem numa perspectiva geopolítica. A questão que se poderá colocar é, se na sequência da crise que se avizinha, se a globalização será reforçada ou, se pelo contrário, haverá uma retracção nas relações entre as nações. Os governantes poderão ver-se pressionados a responder de forma substantiva e sem ambiguidade quando confrontados com interrogações sobre a livre circulação, migrações internacionais e dependência de fornecedores estrangeiros em produtos vitais.

As respostas não serão fáceis principalmente a meio da avaliação política que irá incidir na forma como terão gerido a epidemia e como o sistema de saúde nacional reagiu à ameaça. Nessas circunstâncias, poderá haver uma forte tentação para dar satisfação a sentimentos localistas em detrimentos dos globalistas até como subterfúgio para esvaziar soluções populistas vindas dos extremos do espectro político. O perigo de uma deriva nesse sentido é que certamente no futuro irão aparecer outras ameaças globais – sejam elas epidemias, alterações climáticas e constrangimentos energéticos a forçar transições para fontes renováveis e, quem sabe, emergências planetárias – que vão exigir uma abordagem compreensiva só possível se a política internacional não estiver dominada por interesses egoístas e pela lei do mais forte deixando de lado a cooperação entre as nações e o multilateralismo.

Para Cabo Verde, as notícias da epidemia do coronavírus não podiam ter vindo em pior momento. Actualmente a crescer acima dos 5% do PIB e com perspectivas positivas nos sectores do turismo e da aviação com o hub na ilha do Sal, nada é mais prejudicial do que o surto do Covid-19 precisamente nos países emissores de turistas e que também são destino dos passageiros aliciados a fazer o stopover no Sal nas viagens entre a América do Sul e a Europa e entre a África e os Estados Unidos. A expectativa de ver a economia nacional a ganhar maior dinâmica por arrastamento induzido por desses dois sectores corre o risco de, pelo menos por algum tempo, ficar frustrado. As vias para isso ainda não foram suficientemente desenvolvidas e uma perda da dinâmica pode constituir um sério retrocesso em particular no que respeita ao desenvolvimento do hub do Sal. Mais um exemplo que oportunidades quando aparecem devem ser aproveitadas com acções planeadas e encadeadas e com forte sentido do tempo certo para as implementar se realmente se se quiser atingir os objectivos de um desenvolvimento sustentável num país com as fragilidades de Cabo Verde.

De facto, não se pode continuar a agir como se o país tivesse todo o tempo do mundo, na expectativa de que oportunidades resultantes da dinâmica da economia mundial vão perdurar para sempre. É por se insistir nesse comportamento que há quem considere que Cabo Verde é o país das oportunidades perdidas. Não é fácil sacudir o espírito rentista induzido pela reciclagem da ajuda externa e que reproduz dependência e desigualdade na sociedade cabo-verdiana. Nem tão pouco se mostra prioritário Fazê-lo. Ficam-se pelos discursos que rotineiramente são feitos à volta da iniciativa individual, da meritocracia e da urgência em se ter uma base produtiva de criação de riqueza.

A opção assumida pelos dois grandes partidos nas suas reuniões magnas de Fevereiro e Março em manter em 2020 o essencial do discurso e as propostas de estratégia apresentadas em 2016 e sem um sinal forte de renovação da sua liderança não indicia que haja um forte empenho de fazer diferente. Não deram o melhor sinal de que os seus projectos políticos têm em devida atenção a realidade mundial, as oportunidades que se oferecem e as dificuldades internas em mobilizar vontades para fazer as reformas indispensáveis para o país se desenvolver e aproveitar as oportunidades oferecidas. Há sim vontade de chegar ao poder. Mas o poder só se legitima se é veículo para uma vida de liberdade e de prosperidade com dignidade e segurança. Algo a ter em devida conta nestes momentos de incerteza.

Humberto Cardoso


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 954 de 11 de Março de 2020. 

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Autoria:A Direcção,16 mar 2020 6:47

Editado porSara Almeida  em  10 jul 2020 23:21

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