“Na economia caboverdiana, a alternativa ao turismo é o turismo” “Em termos de mercado emissor a alternativa à europa é a europa”

PorVictor Fidalgo,5 abr 2021 9:28

Especialista em relações económicas internacionais e  promotor de investimentos no sector do turismo.
Especialista em relações económicas internacionais e promotor de investimentos no sector do turismo.

Muito se tem falado e escrito sobre o turismo e muito se vai falar e escrever ainda. E por muitos anos. Sem comprovar com números, muitos têm acusado os sucessivos governos de Cabo Verde de promover a “monocultura do turismo”.

Pretensos “especialistas” têm apelado ao desenvolvimento de outros sectores, a fim de reduzir o peso do turismo na nossa economia! Alguns têm criticado o produto “sol & praia”! Outros, impacientes têm acusado os governos de desenvolver o turismo apenas nas ilhas do Sal e Boavista. Demagogos e primários (quase racistas) têm criticado o facto de a Europa ser o nosso principal, senão único mercado emissor. Tudo isso é fácil de criticar, porque não implica nenhuma responsabilidade. Falar não custa. Mas fazer diferente e melhor é um desafio que não se resolve com declarações, nem com um simples estalar dos dedos.

O turismo como actividade económica universal é recente, datando do período pós Segunda Guerra Mundial (ver Expresso das Ilhas, edição nº1007 de 17 de Março, pag 8-9). Em Cabo Verde, ele é ainda muito mais recente, datando do início deste século. Portanto, tem apenas 20 anos. É claro que a juventude do nosso turismo não pode e nem deve justificar que façamos os mesmos erros que outros países pioneiros cometeram. Para isso deve servir o aprender com a experiência dos outros.

Vejamos a realidade da nossa economia:

Em 1990, o sector primário (agricultura, pecuária e pesca artesanal) representava 17% da nossa economia. O sector secundário (indústrias extractiva e transformadora) representava 30% e o sector terciário representava 53%, onde o turismo (stricto senso) contava apenas para 1,38%. Em 2000, o peso do sector primário desceu para 16%, o da indústria também desceu para 29% e o dos serviços aumentou para 55%. Portanto, mesmo durante a década de 90, houve retracção dos sectores primário e secundário. Em contrapartida, o dos serviços ganhou um ligeiro peso na estrutura da economia nacional. Era o início da modernização da economia caboverdiana.

Mas a verdadeira revolução na economia cabo Verdiana começou a verificar-se precisamente neste século, quando os primeiros investimentos hoteleiros iniciados na segunda metade dos anos 90, começaram a dar resultados e o advento massivo do IDE cujo pico histórico foi atingido no período 2005-2008, consolidou esta transformação.

O sector primário em Cabo Verde é extremamente aleatório e tem dois grandes limites: insuficiência de terra arável e escassez da água. Apesar de todos investimentos feitos na formação e organização dos produtores, na construção de barragens e diques de retenção da água, o potencial de crescimento da agricultura em Cabo Verde é limitado. Aliás, em 2019, consequência de sucessivas secas, o peso deste sector na nossa economia contraiu-se, para representar apenas 6%. E comparado com 1990, o seu valor absoluto representava um acréscimo de apenas 2,38 vezes. Mesmo nos bons anos agrícolas de 2005 a 2015, o seu valor não era elevado e não alavancava a nossa economia. Apenas mantinha o mundo rural animado e fechado sobre si mesmo. Ademais, do meu conhecimento, no mundo moderno não existe nenhum país grande ou pequeno que seja desenvolvido, e que tem um peso importante da agricultura no seu PIB, ou na ocupação da sua força de trabalho. A tendência das economias modernas é para o peso da agricultura se situar à volta de 5% e a absorpção da mão-de-obra também estar a esse nível. Em qualquer dos casos, deve estar abaixo dos 10%.

Muitos reclamam a industrialização. É verdade que há muito espaço natural para a industrialização dos países africanos, mas não de Cabo Verde. Os países africanos exportam diversos produtos agrícolas e minerais que poderiam e deveriam sofrer um certo grau de transformação no local, criando mais empregos, mais rendimentos para as pessoas e mais riqueza para o país. Infelizmente, os seus governos e elites têm se conformado em consolidar um estatuto parasitário, ou seja, viver da renda das exportações de produtos com pouco ou nenhum valor acrescentado. Cabo Verde não está nesse grupo e nem deve pretender estar ali, porque não é exportador de nenhum produto local importante. A industrialização de Cabo Verde passaria pela existência de uma mão de obra altamente qualificada, aliada ao capital estrangeiro, capaz de importar matérias primas e produtos semi-acabados e reexportar produtos transformados. Fácil de dizer, mas muito difícil de fazer. Pelo menos, até ao presente, não temos conseguido isso. Se é verdade que o sector secundário de Cabo Verde cresceu de forma estável, em termos absolutos, tendo aumentado 5,28 vezes entre 1990 e 2019, nesse mesmo período, o seu peso na economia nacional diminuiu de 30% para 23%. Também, todos aqueles que seguem a economia mundial, sabem que essa é, inevitavelmente, a tendência universal. Virá o tempo em que o peso da indústria nas economias da China, Índia, Turquia ou Brasil vai diminuir também.

Portanto, seguindo a tendência mundial, o sector de serviços é o único cujo peso na estrutura da economia nacional caboverdiana aumentou significativamente, tendo passado de 53% do PIB em 1990 para 72% em 2019. Essa é a tendência natural do desenvolvimento moderno de todos os países. A educação e aquisição de novos conhecimentos científicos e tecnológicos, cada vez mais elaborados/sofisticados levam ao aumento da produtividade do trabalho, cujo efeito directo é a libertação da mão-de-obra dos sectores primário e secundário e sua transferência para o terciário, cultura e lazer. Quem diz o contrário é porque ainda não compreendeu os fundamentos nem da economia moderna e nem tão pouco do desenvolvimento, em geral.

Resumindo, o quadro é o seguinte: de 1990 para 2019, a nossa economia aumentou, em termos nominais, 7,08 vezes. A agricultura, teve uma variação muito errática (com altos e baixos). O valor mais elevado foi em 2015, 14.432.000.000 CVE (10% do PIB) para descer e, em 2019, representar apenas 6% do PIB ou somente 2,38 vezes o valor de 1990. A indústria aumentou 5,28 vezes, em termos de valor nominal. O sector de serviços aumentou 9,66 vezes. Foi o sector que mais cresceu e impulsionou o crescimento global.

O turismo, estrito senso (hotelaria e restauração) aumentou 43,24 vezes, em valor nominal. Nenhuma outra actividade económica teve igual desempenho em Cabo Verde. Se considerarmos o turismo em sentido lato, o seu peso na nossa economia passou de 2,9% em 2003 para 23%, em 2019. Sem o poder de alavancagem do turismo, sem o seu efeito multiplicador sobre o resto da economia, não teríamos alcançado o nível onde chegamos em Dezembro de 2019 e não teríamos as reservas ou almofadas que tivemos para gerir actual período de pandemia.

Todos os dias ouvimos falar da necessidade da diversificação da nossa economia, do desenvolvimento das novas tecnologias de informação, da economia verde, da economia azul, etc, etc.

Acredito que muitos sectores têm espaço de crescimento e devem desenvolver-se. Mas uns, necessariamente, vão mais depressa que outros e alguns até acabam por sucumbir com o tempo. Sublinho que temos um grande potencial a desenvolver no sector da economia marítima. Se pensarmos a estratégia com mente aberta e visão universal, com competência profissional e ambição, seguramente que conseguiremos criar uma plataforma de serviços marítimos no Atlântico Médio que possa trazer-nos bons resultados. Aliás, no passado, Cabo Verde teve esta função e perdeu-a por incúria do então poder colonial. Mas, nada de ilusões. Se o nosso objectivo é crescimento económico e também criação de emprego, devemos ter bem claro que os setores modernos da economia, de um modo geral, não são mão-de-obra intensivos. Só o turismo desmente esta regra. Um empreendimento hoteleiro, restaurante, bar, etc, é tanto mais mão-de-obra intensivo, quanto mais luxoso ele for. Portanto, o turismo, além contribuir para as receitas do Estado e para a formação do PIB, cria mais empregos directos por unidade de investimento que dinamizam e estabilizam a economia. Assim, qualquer governo que estiver no poder em Cabo Verde, sem desprimor para os outros sectores, deverá continuar a privilegiar o turismo como a força motriz da nossa economia. E que fique bem claro que não somos os únicos no mundo, a olhar para o turismo como sector de criação do emprego e dinamização da economia. Os países europeus recebem cerca de 51% dos turistas do mundo, a Ásia Pacífico recebe 25%, a América do Norte recebe 15% e a África recebe apenas 5%. Portanto, está claro que a maior parte de turistas procuram os países desenvolvidos para as suas férias. No último ano antes da pandemia, os 5 países que receberam mais turistas no mundo foram a França com 89,4 milhões, seguida da Espanha com 83,5 milhões, EUA - 79,3 milhões, China-65,7 milhões e Itália com 64,5 milhões. Nenhum país africano faz parte do top-10.

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Para melhor ilustrar a ligeireza da tese da monocultura, trazemos aqui o exemplo das Canárias. Esta Região Autónoma da Espanha e membro da Macaronésia, tem uma Agricultura mais desenvolvida que Cabo Verde. Tem um sector de Saúde mais desenvolvido que Cabo Verde. Tem um sector de Economia Marítima mais desenvolvido que Cabo Verde. Aliás, constitui uma verdadeira plataforma marítima no Atlântico Médio. Tem um sector de Educação e Formação muito mais desenvolvido que Cabo Verde. E por isso, o seu Turismo é mais desenvolvido e tem um peso maior na sua economia (33%) que o Turismo de Cabo Verde. Portanto convém pararmos com essa paródia de monocultura do turismo. Devemos concentrar-nos em criar um turismo de cada vez maior valor acrescentado e maior integração do resto da economia e maior inclusão social e económica.

Põe-se o problema do produto turístico. Que temos para oferecer no mercado turístico mundial, a fim de provocar o interesse das pessoas? Aqui já existe uma caixa de pandora aberta, onde não é fácil um consenso. Há pessoas em Cabo Verde que por demagogia e/ou desconhecimento, pretendem que mesmo as ribeiras secas ou as barragens, ou ainda certas paisagens agrestes são produtos turísticos. Cerca de 52% dos turistas no mundo, viajam à procura do lazer. Eu considero que, de entre os produtos de lazer que podemos oferecer de forma competitiva, em primeiro lugar, está o “sol & praia”. Muito longe, vêm depois os outros produtos. Não tenhamos ilusões. Não vamos ter multidões de turistas a visitar Cabo Verde, por causa das nossas montanhas, do vulcão, das áreas protegidas, etc. Estes produtos são nichos satélites que devemos desenvolver em quantidade e qualidade, mas a principal atração de Cabo Verde, é o “sol & praia”. Se alguém tiver dúvidas que faça um inquérito junto dos Tours Operadores / Distribuidores, a nível mundial.

Tendo o “sol & praia” como o produto turístico mais apetecível, é evidente que os investidores e hoteleiros têm a preferência para as ilhas com melhores praias. Contestar ou criticar o facto de as ilhas do Sal e Boavista terem sido as primeiras a atrair os investimentos privados externos e seguidamente os turistas é de uma grande injustiça e pouca seriedade. Ou estamos perante uma grande ignorância sobre as motivações dos turistas. Temos a ilha do Maio que já está na mira de investidores, assim como a ilha de S. Vicente, onde se prevê um boom nos próximos 10-15 anos. Possivelmente, o eixo S. Vicente/Santo Antão vai provocar a segunda revolução no turismo de Cabo Verde. Ali será possível congregar 4 vertentes: “sol & praia”, como base e três grandes subprodutos complementares: o “cultural-urbano”, o “náutico-desportivo” e o “montanhismo”. Atenção, esta visão, bem enquadrada no conceito de ZEEEM vai exigir criatividade, coragem e grande capacidade de gestão, a começar pelo desmantelamento de certas falsas verdades, dogmas e procedimentos administrativos parasitários reinantes em certas instituições do nosso país.

Outra questão que se põe é de onde podem vir os turistas, à procura dos produtos que podemos oferecer com a alguma competitividade? Portanto qual deve ser o nosso mercado emissor? Numa conferência internacional em 2014, realizada na Praia, houve alguém que sentenciou: “A Europa já está velha, Cabo Verde deve virar-se para a África, cuja população é jovem, como nosso futuro mercado emissor”. Esta declaração caiu na sala como a bomba de salvação e toda a sala, à excepção de mim e do ex-Governador do BCV, Carlos Burgo, levantou-se para ovacionar tamanha “descoberta”. Acontece, porém, que a África representa apenas 3% do mercado emissor de turistas, enquanto a Europa representa cerca de 52% do mercado, mundial. Por uma simples questão de aritmética de distribuição, pergunto onde será mais fácil competir, quando temos condições para tal?Acrescenta-se a isso, a necessidade de confirmar se os poucos turistas que saem da África procuram o que temos, ou melhor, se temos o que eles procuram. Sejamos sérios e “racismo à parte”, estamos condenados a ter a Europa como o nosso mercado emissor dominante.

O problema que se põe é que tipo de turistas trazer? Primeiro, temos que alargar o espaço de procura, que tem estado limitado à Europa Ocidental, num raio de 5-6 horas de voo e a uma camada social com baixo poder de compra. Para acedermos a outros mercados temos que ter condições de expandir a promoção em mercados europeus mais distantes. Aqui deparamos com a questão da capacidade dos nossos aeroportos para receber voos de longa distância que normalmente se fazem com aviões de maior capacidade. Felizmente, ao que tudo indica o PDM da Boavista prevê um novo aeroporto. Ficam os desafios dos aeroportos da Praia e de S. Vicente. A isso, devemos juntar, a questão da qualidade do nosso produto e o nicho que devemos atrair. Será que devemos continuar a focar-nos apenas na quantidade, um milhão de turistas, 2-3 milhões, mas com um baixo poder de compra?

Tem-se proclamado que no pós-pandemia, o turismo deve mudar e passar a ter um conteúdo de maior sustentabilidade ambiental, maior interação cultural com a população local, ter maior impacte na economia nacional e permitir maior integração dessa economia, no fornecimento de bens e serviços. Em resultado, espera-se um turismo com maior poder de compra, o que implica termos uma oferta de maior valor acrescentado e mais competitiva. Para esse efeito muitas medidas, a nível de ordenamento do território (baixa ocupação do solo, baixa altimetria, aumento de espaços verdes, conservação e embelezamento dos pontos de interesse turístico) devem ser implementadas com rigor. Para alcançar os turistas com elevado poder de compra que procuram “sol & praia”, devemos alterar profundamente os critérios de pré-análise dos projectos de investimentos, as exigências de qualidade e o rigor no acompanhamento de execução dos mesmos e controle da adequação nas receitas produzidas e declaradas, a fim de garantirmos o justo impacto na nossa economia.

A integração da população no turismo, implica uma política de habitação diferente da que temos tido. Não se trata de um problema social, mas eminentemente económico. Os poderes públicos devem conceber uma solução económica no quadro da expansão dos próprios activos turísticos, de forma descomplexada, transparente e que garanta a dignidade das pessoas que trabalham no sector. Ou seja, a expansão do parque habitacional da população trabalhadora no sector do turismo deve fazer parte do custo dos novos investimentos. Nada de criar guetos dos trabalhadores deste ou aquele grupo hoteleiro, nem tão pouco de relações de dependência entre o contrato de trabalho e a locação de habitação.

O ministério do turismo deve ter os seus poderes aumentados e um papel pais activo e centralizado no processo de aceitação e aprovação de qualquer novo produto que vai integrar a nossa oferta turística e poder ter uma listagem com a definição técnica da qualidade das edificações e do padrão do produto que deve ser autorizado a ser lançado no mercado. Só assim, começaremos a mudança para um turismo de alto valor acrescentado e com maior impacte para a economia e nas pessoas.

A terminar recomendo: “os partidos que já governaram ou governam Cabo Verde não devem sentir-se culpados do elevado peso do turismo na nossa economia nem tão pouco do nosso principal mercado emissor ser a Europa. Os partidos que pretendem aproximar-se do poder devem ter bem claro que na economia não há milagres. Temos que apoiar-nos nos factores existentes ou criar outros que possam ter um impacte real e não fantasistas”.

Portanto, concluo: “na economia caboverdiana, a alternativa ao turismo é o turismo. A alternativa à Europa como mercado emissor é a Europa”

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1009 de 31 de Março de 2021.

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Autoria:Victor Fidalgo,5 abr 2021 9:28

Editado porAndre Amaral  em  15 abr 2021 10:19

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