35 Anos de Democracia: entre a Defesa da Liberdade e a Ambição Do legado da democracia à audácia de sermos um "Big Ocean State".

PorPaulo Veiga,16 jan 2026 11:34

​Diz-se frequentemente que a geografia é o destino. Para Cabo Verde, essa máxima nunca foi tão vibrante e, simultaneamente, tão desafiante como no amanhecer deste ano de 2026. Neste novo ano, ao celebrarmos os 35 anos do 13 de Janeiro, não estamos apenas a comemorar uma data no calendário ou a vitória de um modelo político sobre outro. Estamos a celebrar o momento em que os cabo-verdianos decidiram que o seu destino não seria escrito por imposição, mas por escolha.

Como afirmou Winston Churchill, “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que foram tentadas”. Em 1991, Cabo Verde escolheu essa liberdade, e com ela conquistou o direito de estar sentado à mesa das nações livres. Mas a liberdade, tal como o mar que nos rodeia, não é um estado estático, é um movimento contínuo que exige manutenção, vigilância e, acima de tudo, uma bússola estratégica afinada e guiada por um farol que assenta as suas fundações na democracia e na liberdade.

A Desordem como Panorama

Vivemos num tempo que os historiadores do futuro descreverão como a "Era da Grande Fragmentação". Olhamos para o mapa mundo e vemos um cenário de incerteza que não conhecíamos há décadas. As guerras na Europa e no Médio Oriente não são apenas conflitos distantes, são sismos que alteram as rotas do comércio internacional e testam a resiliência das democracias liberais.

Não podemos ignorar que a instabilidade que nos rodeia é, no seu âmago, uma crise de valores. O que vemos hoje na Venezuela é o espelho do que acontece quando a sede de poder atropela a vontade popular e a integridade das instituições. Para Cabo Verde, a clareza moral é um imperativo e estaremos sempre ao lado das democracias, pois sabemos que o que ali se instalou é uma ditadura que sufoca a liberdade. Esta não é apenas uma posição ética, é uma leitura estratégica da realidade. O controlo das reservas de petróleo e as ondas de choque que este movimento gera na estrutura de preços e na oferta mundial têm um impacto direto nas nossas ilhas e na economia global.

Neste xadrez de influências, a nossa bússola deve ser firme e pragmática. Os Estados Unidos da América, onde reside uma das maiores, mais dinâmicas e politicamente relevantes comunidades da diáspora cabo-verdiana, são um aliado estratégico incontornável, tanto pela afinidade de valores como pelo seu papel central na segurança e na arquitetura global. Essa relação não exclui, antes complementa, a parceria histórica e estrutural com Portugal e com a Europa. É precisamente nesta rede de alianças de confiança que Cabo Verde deve navegar a atual policrise internacional, num contexto em que a segurança energética, a transição económica e tecnológica e a estabilidade geopolítica se tornaram novos instrumentos de influência global.

Enquanto as grandes potências disputam o controlo dos recursos e redesenham as rotas de energia, Cabo Verde tem de ter a audácia de se posicionar como o mediador da nova era no Atlântico Médio. A nossa ambição não se esgota na participação passiva no comércio internacional, o nosso desígnio é liderar pelo exemplo de estabilidade e previsibilidade. Num oceano de incertezas, a nossa moeda de troca mais valiosa é a confiança institucional. É essa confiança que nos permitirá atrair o capital e o conhecimento necessários para transformar a nossa vulnerabilidade energética numa oportunidade de vanguarda, liderando a transição para portos verdes e economias de baixo carbono.

O comércio global está a ser redesenhado pela geopolítica. A "globalização" deu lugar à soberania das cadeias de abastecimento. Neste tabuleiro de xadrez, onde as grandes potências redefinem esferas de influência, Cabo Verde encontra-se perante uma escolha a de continuar a gerir o mar de forma setorial e reativa, ou assumir plenamente uma visão integrada e de liderança atlântica. Não podemos ser meros espectadores. Num mundo em desordem, a nossa estabilidade democrática e a nossa localização estratégica são os nossos ativos mais valiosos. Somos, por natureza, um porto seguro, físico e institucional.

A economia do futuro não se medirá apenas em toneladas de carga, mas em resiliência e fluxos de dados. A transição energética global oferece a Cabo Verde uma oportunidade histórica de deixar de ser um importador de custos para ser um exportador de soluções. Se o mundo procura "portos verdes" e corredores logísticos descarbonizados, temos de ser nós a desenhar essa arquitetura no Atlântico. A nossa economia deve ser tão fluida e dinâmica como o mar que nos banha, capaz de atrair o capital que foge da desordem para a segurança das nossas instituições.

O Imperativo da Integridade onde sem Justiça não há Ambição

É neste contexto que a efeméride deste ano ganha uma urgência renovada. A democracia que conquistámos há três décadas não é um cheque em branco, é um compromisso diário com a ética e com a transparência. Assistimos, com preocupação, a tentativas de fragilizar o sistema a partir de dentro, onde o interesse pessoal ou a fuga às responsabilidades procuram sobrepôr-se ao bem comum.

Como referiu o antigo Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, “Ninguém nasce um bom cidadão, nenhuma nação nasce uma democracia. Em vez disso, ambos são processos que continuam a evoluir”. Esta evolução exige que tenhamos a coragem de blindar as nossas instituições. Não há ambição económica que sobreviva à erosão da confiança. A separação de poderes e uma justiça independente não são obstáculos ao progresso, são, pelo contrário, as garantias de que o investimento internacional e o desenvolvimento sustentável encontram solo fértil em Cabo Verde.

Quem procura retirar poderes aos investigadores ou contornar as regras do Estado de Direito não está apenas a defender-se a si próprio, está a atacar o futuro de todos os cabo-verdianos. A defesa da liberdade exige que sejamos intransigentes com a ética na governação.

De Pequena Ilha a "Big Ocean State"

Esta integridade é o fundamento da nossa confiança externa. Um país que protege as suas instituições é um país que oferece segurança a quem nele quer investir. É sobre este alicerce de transparência que erguemos o nosso maior desígnio, o de transformar Cabo Verde de uma pequena ilha num "Big Ocean State".

É aqui que o nosso legado democrático se funde com a nossa ambição futura. Cabo Verde não é apenas um pequeno estado insular, é, por natureza e por destino, um país do mar. Somos um Big Ocean State, pequeno em território, mas relevante em visão e liderança.

A nossa soberania moderna exerce-se na capacidade de monitorizar o nosso território, de garantir que os nossos portos são os mais seguros e eficientes do Atlântico e de criar ecossistemas de conhecimento que fixem talento jovem nas ilhas. Quando investimos em tecnologia, em segurança portuária ou em inovação oceânica, não estamos apenas a falar de economia, estamos a falar de dotar o Estado dos instrumentos necessários para que o povo cabo-verdiano seja dono do seu destino marítimo.

A forma como pensamos, gerimos e projetamos os nossos portos, os nossos mares e as nossas cidades condiciona diretamente a nossa capacidade de captar investimento e de sermos parceiros credíveis no espaço atlântico. Não se trata apenas de engenharia, mas de governação estratégica.

O Ano do Novo Patamar

O ano de 2026 será o momento de decidir se queremos continuar a navegar à vista ou se temos a audácia de traçar uma rota de longo curso. O otimismo que defendo é baseado na ação. É a crença de que, apesar da instabilidade externa, Cabo Verde tem todas as ferramentas para ser um caso de sucesso global.

Liderar é, como dizia Peter Drucker, “fazer as coisas certas”. A coisa certa a fazer agora é elevar o patamar da nossa ambição, ancorando-a na solidez das nossas instituições. Se o comércio internacional está a mudar de rotas, temos de ser nós a oferecer o cais mais fiável e a logística mais segura. Se o mundo precisa de um espaço de diálogo e de equilíbrio sobre o futuro dos oceanos, temos de ter a audácia de ser nós a liderar esse debate a partir do Atlântico, afirmando a nossa centralidade como uma plataforma de soluções globais.

E, como mencionei acima, o ano de 2026 não será apenas um marco geopolítico, será também um momento decisivo para a democracia cabo‑verdiana. As eleições legislativas representam a oportunidade de renovar o compromisso coletivo com o futuro do país. Num tempo de incertezas globais, a força de Cabo Verde continuará a residir na participação cívica, na maturidade democrática e na capacidade de cada cidadão exercer o seu voto de forma livre, informada e consciente.


Não esqueçamos que a democracia só se fortalece quando todos, mas verdadeiramente todos, participam. A abstenção não é neutra, é uma renúncia ao poder de influenciar o rumo do país. O voto, pelo contrário, é o instrumento mais poderoso que uma sociedade livre possui para decidir o seu destino. Em 2026, mais do que escolher representantes, Cabo Verde estará a reafirmar o valor da liberdade conquistada há 35 anos, e centrar o poder onde ele realmente deve estar: nas pessoas.

Assim, ao olharmos para o horizonte neste início de Janeiro, que a imensidão do Atlântico nos sirva de inspiração. Que os 35 anos de democracia nos deem a confiança para saber que somos capazes de nos reinventarmos sem nunca abdicarmos dos nossos valores.

O futuro de Cabo Verde escreve-se aqui, com a coragem de assumirmos a nossa centralidade mundial. Sejamos a nação que transformou o mar no seu maior ativo de liberdade. Porque para quem sabe para onde navega, o mar nunca é um limite, mas sim um caminho infinito de possibilidades.

O futuro não espera. Vamos construí-lo juntos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1259 de 14 de Janeiro de 2026.

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Paulo Veiga,16 jan 2026 11:34

Editado porClaudia Sofia Mota  em  16 jan 2026 14:19

pub.
pub
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.