Como afirmou Winston Churchill, “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que foram tentadas”. Em 1991, Cabo Verde escolheu essa liberdade, e com ela conquistou o direito de estar sentado à mesa das nações livres. Mas a liberdade, tal como o mar que nos rodeia, não é um estado estático, é um movimento contínuo que exige manutenção, vigilância e, acima de tudo, uma bússola estratégica afinada e guiada por um farol que assenta as suas fundações na democracia e na liberdade.
A Desordem como Panorama
Vivemos num tempo que os historiadores do futuro descreverão como a "Era da Grande Fragmentação". Olhamos para o mapa mundo e vemos um cenário de incerteza que não conhecíamos há décadas. As guerras na Europa e no Médio Oriente não são apenas conflitos distantes, são sismos que alteram as rotas do comércio internacional e testam a resiliência das democracias liberais.
Não podemos ignorar que a instabilidade que nos rodeia é, no seu âmago, uma crise de valores. O que vemos hoje na Venezuela é o espelho do que acontece quando a sede de poder atropela a vontade popular e a integridade das instituições. Para Cabo Verde, a clareza moral é um imperativo e estaremos sempre ao lado das democracias, pois sabemos que o que ali se instalou é uma ditadura que sufoca a liberdade. Esta não é apenas uma posição ética, é uma leitura estratégica da realidade. O controlo das reservas de petróleo e as ondas de choque que este movimento gera na estrutura de preços e na oferta mundial têm um impacto direto nas nossas ilhas e na economia global.
Neste xadrez de influências, a nossa bússola deve ser firme e pragmática. Os Estados Unidos da América, onde reside uma das maiores, mais dinâmicas e politicamente relevantes comunidades da diáspora cabo-verdiana, são um aliado estratégico incontornável, tanto pela afinidade de valores como pelo seu papel central na segurança e na arquitetura global. Essa relação não exclui, antes complementa, a parceria histórica e estrutural com Portugal e com a Europa. É precisamente nesta rede de alianças de confiança que Cabo Verde deve navegar a atual policrise internacional, num contexto em que a segurança energética, a transição económica e tecnológica e a estabilidade geopolítica se tornaram novos instrumentos de influência global.
Enquanto as grandes potências disputam o controlo dos recursos e redesenham as rotas de energia, Cabo Verde tem de ter a audácia de se posicionar como o mediador da nova era no Atlântico Médio. A nossa ambição não se esgota na participação passiva no comércio internacional, o nosso desígnio é liderar pelo exemplo de estabilidade e previsibilidade. Num oceano de incertezas, a nossa moeda de troca mais valiosa é a confiança institucional. É essa confiança que nos permitirá atrair o capital e o conhecimento necessários para transformar a nossa vulnerabilidade energética numa oportunidade de vanguarda, liderando a transição para portos verdes e economias de baixo carbono.
O comércio global está a ser redesenhado pela geopolítica. A "globalização" deu lugar à soberania das cadeias de abastecimento. Neste tabuleiro de xadrez, onde as grandes potências redefinem esferas de influência, Cabo Verde encontra-se perante uma escolha a de continuar a gerir o mar de forma setorial e reativa, ou assumir plenamente uma visão integrada e de liderança atlântica. Não podemos ser meros espectadores. Num mundo em desordem, a nossa estabilidade democrática e a nossa localização estratégica são os nossos ativos mais valiosos. Somos, por natureza, um porto seguro, físico e institucional.
A economia do futuro não se medirá apenas em toneladas de carga, mas em resiliência e fluxos de dados. A transição energética global oferece a Cabo Verde uma oportunidade histórica de deixar de ser um importador de custos para ser um exportador de soluções. Se o mundo procura "portos verdes" e corredores logísticos descarbonizados, temos de ser nós a desenhar essa arquitetura no Atlântico. A nossa economia deve ser tão fluida e dinâmica como o mar que nos banha, capaz de atrair o capital que foge da desordem para a segurança das nossas instituições.
O Imperativo da Integridade onde sem Justiça não há Ambição
É neste contexto que a efeméride deste ano ganha uma urgência renovada. A democracia que conquistámos há três décadas não é um cheque em branco, é um compromisso diário com a ética e com a transparência. Assistimos, com preocupação, a tentativas de fragilizar o sistema a partir de dentro, onde o interesse pessoal ou a fuga às responsabilidades procuram sobrepôr-se ao bem comum.
Como referiu o antigo Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, “Ninguém nasce um bom cidadão, nenhuma nação nasce uma democracia. Em vez disso, ambos são processos que continuam a evoluir”. Esta evolução exige que tenhamos a coragem de blindar as nossas instituições. Não há ambição económica que sobreviva à erosão da confiança. A separação de poderes e uma justiça independente não são obstáculos ao progresso, são, pelo contrário, as garantias de que o investimento internacional e o desenvolvimento sustentável encontram solo fértil em Cabo Verde.
Quem procura retirar poderes aos investigadores ou contornar as regras do Estado de Direito não está apenas a defender-se a si próprio, está a atacar o futuro de todos os cabo-verdianos. A defesa da liberdade exige que sejamos intransigentes com a ética na governação.
De Pequena Ilha a "Big Ocean State"
Esta integridade é o fundamento da nossa confiança externa. Um país que protege as suas instituições é um país que oferece segurança a quem nele quer investir. É sobre este alicerce de transparência que erguemos o nosso maior desígnio, o de transformar Cabo Verde de uma pequena ilha num "Big Ocean State".
É aqui que o nosso legado democrático se funde com a nossa ambição futura. Cabo Verde não é apenas um pequeno estado insular, é, por natureza e por destino, um país do mar. Somos um Big Ocean State, pequeno em território, mas relevante em visão e liderança.
A nossa soberania moderna exerce-se na capacidade de monitorizar o nosso território, de garantir que os nossos portos são os mais seguros e eficientes do Atlântico e de criar ecossistemas de conhecimento que fixem talento jovem nas ilhas. Quando investimos em tecnologia, em segurança portuária ou em inovação oceânica, não estamos apenas a falar de economia, estamos a falar de dotar o Estado dos instrumentos necessários para que o povo cabo-verdiano seja dono do seu destino marítimo.
A forma como pensamos, gerimos e projetamos os nossos portos, os nossos mares e as nossas cidades condiciona diretamente a nossa capacidade de captar investimento e de sermos parceiros credíveis no espaço atlântico. Não se trata apenas de engenharia, mas de governação estratégica.
O Ano do Novo Patamar
O ano de 2026 será o momento de decidir se queremos continuar a navegar à vista ou se temos a audácia de traçar uma rota de longo curso. O otimismo que defendo é baseado na ação. É a crença de que, apesar da instabilidade externa, Cabo Verde tem todas as ferramentas para ser um caso de sucesso global.
Liderar é, como dizia Peter Drucker, “fazer as coisas certas”. A coisa certa a fazer agora é elevar o patamar da nossa ambição, ancorando-a na solidez das nossas instituições. Se o comércio internacional está a mudar de rotas, temos de ser nós a oferecer o cais mais fiável e a logística mais segura. Se o mundo precisa de um espaço de diálogo e de equilíbrio sobre o futuro dos oceanos, temos de ter a audácia de ser nós a liderar esse debate a partir do Atlântico, afirmando a nossa centralidade como uma plataforma de soluções globais.
E, como mencionei acima, o ano de 2026 não será apenas um marco geopolítico, será também um momento decisivo para a democracia cabo‑verdiana. As eleições legislativas representam a oportunidade de renovar o compromisso coletivo com o futuro do país. Num tempo de incertezas globais, a força de Cabo Verde continuará a residir na participação cívica, na maturidade democrática e na capacidade de cada cidadão exercer o seu voto de forma livre, informada e consciente.
Não esqueçamos que a democracia só se fortalece quando todos, mas verdadeiramente todos, participam. A abstenção não é neutra, é uma renúncia ao poder de influenciar o rumo do país. O voto, pelo contrário, é o instrumento mais poderoso que uma sociedade livre possui para decidir o seu destino. Em 2026, mais do que escolher representantes, Cabo Verde estará a reafirmar o valor da liberdade conquistada há 35 anos, e centrar o poder onde ele realmente deve estar: nas pessoas.
Assim, ao olharmos para o horizonte neste início de Janeiro, que a imensidão do Atlântico nos sirva de inspiração. Que os 35 anos de democracia nos deem a confiança para saber que somos capazes de nos reinventarmos sem nunca abdicarmos dos nossos valores.
O futuro de Cabo Verde escreve-se aqui, com a coragem de assumirmos a nossa centralidade mundial. Sejamos a nação que transformou o mar no seu maior ativo de liberdade. Porque para quem sabe para onde navega, o mar nunca é um limite, mas sim um caminho infinito de possibilidades.
O futuro não espera. Vamos construí-lo juntos.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1259 de 14 de Janeiro de 2026.
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