Da vontade de ir e [poder] voltar

PorNuno Andrade Ferreira,5 jan 2019 6:53

​Belarmino Lucas, Antónia Mosso, Carlos Araújo e Olavo da Luz concordam: em São Vicente, 2018 não foi um ano fácil. Os transportes estiveram no topo da agenda.

Viajar e transportar carga de e para São Vicente ficou mais difícil e mais caro em 2018. É essa a percepção dos convidados do Expresso das Ilhas para esta espécie de balanço do ano, na ilha do Porto Grande. À lista de reclamações, Belarmino, Antónia, Carlos e Olavo juntam, à vez, o “estrangulamento” económico – também ele resultado da escassez de transportes – o desemprego jovem, alguma criminalidade e a falta de diálogo.

Para Belarmino Lucas, presidente da Câmara de Comércio de Barlavento, e comentador da Rádio Morabeza, os últimos doze meses foram difíceis.

Sempre nas notícias e sempre no centro das preocupações dos empresários, o eterno problema da conectividade de São Vicente ao país e ao mundo. A unificação do mercado permanece por resolver e as mudanças na operação da TACV, com o fim dos voos para o Aeroporto Cesária Évora, só vieram complicar as contas de quem precisa de transportes regulares e a preços acessíveis para manter e fazer crescer o negócio.

“Temos, infelizmente, a indefinição relativamente ao processo de privatização da TACV, que fez com que durante a maior parte do ano não se soubesse exactamente aquilo que se pretendia fazer com a companhia, com as consequenciais que nós todos conhecemos”, recorda.

As dificuldades no sector dos transportes também são observadas por Antónia Mosso, activista social, que conhecemos como uma das vozes pelo direito ao sossego nas residências, através da associação com o mesmo nome.

“O transporte é sinónimo de desenvolvimento e esses problemas de ligações, tanto aéreas como marítimas, são um entrave para o desenvolvimento económico das ilhas do Norte”, comenta.

As dificuldades ao nível dos transportes são, para Olavo da Luz, cineasta e terapeuta ocupacional, uma das razões para “a saída de capital humano” da ilha.

“É angustiante para os jovens não ter perspectivas de emprego e isso força as pessoas a sair e tem um efeito ‘bola de neve’, quanto mais gente sai, menos a economia desenvolve, há menos consumidores, há menos capital humano e intelectual”, alerta.

Mas nem só de transportes se fazem as ilhas. Do ponto de vista social, problemas antigos continuam, como é o caso da criminalidade, apesar da percepção da diminuição do número de ocorrências.

“Sabemos que são recorrentes os assaltos e a criminalidade juvenil, normalmente flutuante. Isso está associado a problemas sociais que precisam de ser resolvidos com urgência”, adverte Olavo da Luz.

Crianças em situação de rua, gestão de resíduos sólidos, a enseada de corais na Laginha e cães vadios são questões que, na óptica de Antónia Mosso, também incomodam os mindelenses. À lista, Antónia junta um outro constrangimento: a falta de comunicação.

“Temos tido vários problemas na ilha e por parte do poder local parece que há um grande apagão, há um silêncio perturbador em relação aos assuntos flagrantes que incomodam os são-vicentinos”, lamenta.

Perante os desafios, 2018 acabou por ser o ano da resistência. É pelo menos essa a convicção de Carlos Araújo, do movimento Sokols, para quem São Vicente resistiu.

“A resiliência do povo de São Vicente deu provas, realmente. O activismo tem a ideia de ver as pessoas mais felizes e eu não acredito que estejamos a chegar ao fim do ano com um índice de felicidade superior ao inicial. Aliás, estamos a chegar com alguma revolta, algum sentimento de que poderia ter sido feito muito mais”, resume.

Inconformado com a situação actual da ilha, pela qual luta há vários anos, e ao fazer uma retrospectiva dos últimos [quase] 365 dias, o activista tem dificuldades em encontrar pontos positivos.

“Eu poderia enumerar algumas coisas que poderiam ter sido boas: o início das obras do porto de águas profundas, se é que isto é bom para São Vicente, a regionalização, que era uma coisa que deveria ser boa mas foi tão mal estudada que acabou por ser uma coisa negativa”, exemplifica.

“O povo começou a sair à rua e isto é muito bom”, contrapõe.

Antónia Mosso também regista com agrado uma maior capacidade reivindicativa.

“A cidadania activa está no seu esplendor, há um desenvolvimento da capacidade de indignação da população e isso é muito bom. O abandono daquela postura fatalista. As pessoas vão levantar a voz para exigir e reivindicar os seus direitos”, espera.

De olhos postos nos negócios e nas empresas, e já perspectivando 2019, Belarmino Lucas deseja a aceleração das reformas anunciadas pelo Governo e necessárias para o sector privado.

“Os sinais positivos dados pelos nossos parceiros internacionais, na recente Conferência de Paris, deverão ser sabiamente interpretados e eficazmente aproveitados, para alavancar o desenvolvimento do país, em 2019”, remata.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 892 de 2 de Janeiro de 2019.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,5 jan 2019 6:53

Editado porSara Almeida  em  23 ago 2019 23:22

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