Reabertura : Que turismo teremos?

PorNuno Andrade Ferreira,30 mai 2020 7:34

Acendem-se as primeiras luzes do regresso do turismo, com a tutela a desenhar um plano para a reabertura do país, através da implementação de um protocolo sanitário. Mas o processo será longo e a retoma demorada. O que deverá mudar? Dois economistas respondem.

O sector turístico move-se num terreno incerto. Desde Março, com o fecho de fronteiras, provocado pela pandemia de covid-19, tornou-se habitual ver hotéis e restaurantes vazios, espaços de entretenimento fechados e reservas canceladas.

A Organização Mundial do Turismo prevê uma redução entre 60 a 80% do número de turistas em 2020.

O economista Paulino Dias considera que 2020 será um ano “complicado”.

“Em 2020 não é razoável esperarmos uma recuperação substancial do fluxo turístico. Em 2021 já estou mais optimista. Lá para o segundo ou terceiro trimestre já poderá haver uma retoma mais substancial”, vaticina.

As contas do governo apontam para uma quebra anual no número de turistas na casa dos 60%, depois de anos de crescimento.

Perante a situação de ruptura, Paulino Dias defende que se aproveite a ocasião para pensar e tirar lições.

“Devemos estudar o tipo de turismo que se vem desenvolvendo em ilhas como Santo Antão. Esse tipo de turismo tende a ser mais resiliente em cenários de crise, tendea ter uma rapidez de recuperação maior do que o all inclusive que se vem praticando no Sal e na Boa Vista”, explica.

João Evangelista, cabo-verdiano nascido em Santo Antão, há muitos anos residente no Brasil, onde dirige a Faculdade de Turismo da Universidade Federal Fluminense, preconiza uma visão alicerçada na pequena economia.

“Sempre defendi a ideia de que, para países como Cabo Verde, precisas de ter um turismo mais com base em micro e pequenas empresas, incentivar em linhas de crédito para essas micro e pequenas empresas, não ter um trabalho concentrado no ministério do Turismo e Transportes, mas sim em cooperação com as Câmaras Municipais. Num momento como esse, não adianta fazer uma política da capital e achar que vai chegar na ponta. Acho que é o momento de pensar na sociedade, no Estado e não no governo, mas de uma forma que possa ter uma política articulada”, observa.

A partir da ideia de um turismo mais inclusivo, Evangelista quer alterar a métrica simples de medir o sucesso do destino apenas pelo número de turistas que cruzam as fronteiras.

“Um turismo mais inclusivo faz mais sentido do que teres grandes empreendimentos. Às vezes, acabamos valorizando os grandes empreendimentos mas o turismo no pequeno negócio tem um impacto social, de inclusão, de desenvolvimento, que é um outro conceito. Parece que estamos mais preocupados em levar mais turistas e não no que isso vai gerar em termos de benefício económico. Tem que mudar um pouco esse pensamento. Não é só levar turistas, é preciso saber o que é que isso está gerando para o desenvolvimento local”, concretiza.

Turismo interno

Com cerca de 25% da riqueza nacional dependente do sector turístico, a retracção do PIB será inevitável e é admitida pelo ministério das Finanças.

Para Paulino Dias, a existência de uma estratégia para o turismo interno ajudaria a mitigar o impacto da crise de procura externa.

“Nunca houve políticas públicas para promover o turismo interno, que enfrenta desde logo o custo das passagens inter-ilhas. Depois, há um outro aspecto, diria até psicológico, é que o viajante interno não é percebido, nem por parte das autoridades, nem por parte da sociedade ou dos operadores, como um turista. Num momento de crise, ficamos sem essa bengala do mercado interno”, lamenta.

No mesmo sentido, João Evangelista recorda que o mercado interno é uma das vias para diminuir os inevitáveis efeitos da crise.

“Talvez pudesse ser criado algum tipo de programa que pudesse incentivar viagens internas, numa parceria entre a empresa aérea e os hotéis, para criar alguma dinâmica interna. Neste momento, como há dificuldade em trazer turistas internacionais, uma estratégia seria o incentivo a viagens internas”, equaciona.

O turista pós-covid

Aeroportos com controlo de temperatura? Uso de máscara? Testes? Quarentena obrigatória? Perguntas que encontrarão respostas nas próximas semanas. A reabertura do país terá que ser feita do equilíbrio possível entre segurança sanitária e necessidade de fazer a economia funcionar.

O professor João Evangelista coloca o foco no “estar pronto”.

“É preciso começar a preparar o país para quando houver essa abertura”, sintetiza.

Será cedo para traçar o perfil do turista pós-covid, mas é certo que a segurança sanitária irá pesar na escolha do destino de férias.

O futuro deverá ser preparado com foco na sustentabilidade e diversificação.

“Podes usar as ilhas onde a pandemia está controlada para receber turistas internacionais, mas mais uma vez precisas de uma preparação, porque o turista que está a chegar pode levar o vírus para essas ilhas. Não podes ter muita pressa”, remata o professor da Universidade Federal Fluminense. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 965 de 27 de Maio de 2020. 

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,30 mai 2020 7:34

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  2 ago 2020 23:21

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