Vacinação decorre com boa adesão e sem sobressaltos

PorSara Almeida,24 abr 2021 6:34

A 18 de Março, a enfermeira Elga Fontes Bandiane, de 63 anos, foi a primeira pessoa a ser vacinada contra a COVID-19 em Cabo Verde
A 18 de Março, a enfermeira Elga Fontes Bandiane, de 63 anos, foi a primeira pessoa a ser vacinada contra a COVID-19 em Cabo Verde

A adesão à vacinação contra a covid-19, de administração opcional, tem sido boa entre as camadas que, nesta primeira fase, podem aceder à mesma. Praticamente todos os profissionais de saúde, do público e do privado, bem como a protecção civil e bombeiros já foram vacinados.

Em curso, por ordem de idade decrescente, está a vacinação de idosos com mais de 70 anos. Até ao momento, não há reacções adversas graves à vacina.

Maria é profissional de saúde em um centro de saúde da capital. Na linha da frente da luta contra a doença, foi das primeiras pessoas no país a tomar a vacina contra a covid-19. Já tomou as duas doses previstas, da vacina Pfizer, com 21 dias de intervalo. E se da última vez nada sentiu – “parecia que não tomei nada” - na primeira toma teve reacções.

“O primeiro dia foi muito mau”, conta. Tomou a vacina de manhã e a partir do meio da tarde, e em crescendo, sentiu secura, falta de paladar e de apetite, um mal-estar geral, nevrálgico. “Sentia o corpo febril, mas não tinha febre”. No dia seguinte acordou apenas com uma ligeira dor no braço onde tinha sido injectada. E cheia de fome. Já não sentiu mais nada. Algumas colegas tiveram reacções semelhantes. Outras, apenas sentiram efeitos na segunda toma. Há quem se queixe de tonturas, dores atrás dos olhos, sintomas semelhantes à gripe. E também há registo de vómitos. Cada um reage à sua maneira. Mas nenhum dos efeitos relatados são fora do esperado.

Semanas depois de Maria, Ana, que trabalha num consultório privado, vacinou-se com AstraZeneca. Tomou a primeira dose e só em Junho/Julho tomará a segunda (o tempo entre doses é maior do que a Pfizer). Diz não ter sentido nada. Tal, como vários idosos vacinados, que Maria acompanha e que dizem, também, não ter sentido reacções.

Mas as entidades estão atentas, garante Ivanilda Santos, coordenadora do Programa Nacional de Vacinação (PNV), tendo sido inclusivamente montada, pelo Ministério de Saúde juntamente com a Entidade Reguladora Independente da Saúde (ERIS), uma equipa de gestão de casos que possam suscitar alguma preocupação.

Até agora não houve nenhum grave.

Grupos e prioridades

A 12 de Março, chegou a Cabo Verde um carregamento com 5.850 doses da vacina Pfizer/BioNTech e dois dias depois, 24.000 doses da AstraZeneca/Oxford (de um total de 108 mil a serem fornecidas ao abrigo da iniciativa COVAX).

Arrancou, então, a 19 de Março, o Plano Nacional de Vacinação contra a covid. Os primeiros inoculados foram os profissionais de saúde que trabalham na linha da frente do combate à pandemia, sendo que a vacina da Pfizer foi reservada para este grupo. Os restantes, incluindo a população idosa, está a ser vacinada com a vacina da AstraZeneca.

Neste momento, conforme nos conta a coordenadora do PNV, já praticamente 100% dos profissionais de saúde, incluindo os do privado, laboratório, farmácias, etc, foram vacinados. Os que não foram, acrescenta o Director Nacional da Saúde (DNS), Jorge Barreto, terá sido porque já tinham tido uma infecção por SARS-CoV-2, sendo neste caso necessário esperar seis meses até à vacinação. Houve igualmente um número residual de profissionais que optaram por não ser vacinados, podendo fazê-lo quando assim o decidirem.

Entretanto, também a nível da protecção civil e bombeiros a vacinação, segundo Ivanilda Santos, está basicamente completa.

Os maiores de 60 anos são também uma prioridade, mas neste momento ainda se está nas faixas acima dos 70.

Além destes, recorde-se, entre os grupos prioritários estão também os agentes da Polícia Nacional e Forças Armadas, mas apenas agentes, que trabalham essencialmente na fiscalização, ou seja, na linha da frente da covid, foram vacinados.

Outros grupos são os professores, os profissionais de turismo e os doentes crónicos (independentemente da idade), não havendo, porém, ainda data para o inicio da sua vacinação.

É que para responder a estes grupos, são necessárias 267.293 doses, muito mais do que o país tem actualmente disponível…

Em termos de números da inoculação, cerca de 6.000 pessoas já terão sido vacinadas a AstraZeneca (portanto, cerca de metade do número de pessoas que podem beneficiar do primeiro carregamento da vacina). Juntamente, com a Pfizer os vacinados serão já mais de 8.500.

E as vacinações decorrem todos os dias em todo o país. Na Achada Santo António chegam a ser mais de 100 vacinas por dia, número que é a média diária da tenda montada para o efeito no Gimnodesportivo da capital. A nível nacional, avança a coordenadora do PNV, estão a ser vacinadas até 600 pessoas por dia.

(Des)Confiança

A vacinação, como se sabe, não é obrigatória. Assim, o sucesso da vacinação depende muito da adesão da população e sua postura face às vacinas.

“Na primeira semana, pensei que íamos estragar ampolas”, confessa Maria. A desconfiança em relação à vacina da AstraZeneca era bastante, motivada pelas suspensões que havia em outros países face a raros casos de formação de coágulos (ver caixa).

Mesmo em Cabo Verde, houve um pequeno momento de standby desta vacina. Depois, iniciou-se a vacinação. E a população, embora às vezes se mostre algo reticente na teoria, na prática tem aderido. Para isso estará também a contribuir a significativa confiança que os cidadãos, no geral, depositam na ciência e nos profissionais de saúde.

“Recentemente, um casal de pacientes septuagenários perguntou-me se eu achava que deviam tomar a vacina [AstraZeneca, no caso]. Claro que disse que sim”, conta Luísa, médica no sector público e privado.

Sim, e com explicações. É que tal como qualquer vacina ou medicamento, a AstraZeneca ou Pfizer têm efeitos secundários, alerta. Aliás, sabe-se, sem alarido popular, que quando um bebé toma as suas vacinas pode ficar com febre e dores. O mesmo acontece com um adulto. E no caso destes pode haver ainda o factor psicológico que assoberba sintomas e estabelece associações falsas. Além disso, entre as reacções adversas, pode haver, sempre, algumas reacções raras. É pesar benefício, risco, e tal como tem sido repetido à exaustão por várias entidades da saúde, os benefícios da toma superam de longe os riscos.

Como contextualiza, por seu turno, Jorge Barreto, a própria AstraZeneca indica nos documentos da vacina que há uma rara probabilidade de” acontecerem eventos trombóticos. Mas colocaram isso como uma possibilidade muito, muito rara.” O médico recorda ainda que há vários outros medicamentos e procedimentos que podem causar coágulos. “Por exemplo, os anticontraceptivos orais” (pílula).

“Mas parece que as pessoas se esqueceram disso. Parece que agora só as vacinas da covid é que provocam esses problemas. Há que ponderar…”

Uma compilação realizada pelo jornal Público, coloca a questão em perspectiva. Embora haja o risco de 1 em cada 100.000 pessoas desenvolverem coágulos sanguíneos após a toma (segundo a Agência Europeia do Medicamento – EMA), 16,7 pessoas em cada 100.000 desenvolvem coágulos após andar de avião. Após uma cirurgia ortopédica 3000 em 100 mil pessoas podem sofrer uma trombose. E o mais importante, contrair a doença implica um risco extremamente mais elevado, sendo que, escreve o jornal, “o risco de embolia pulmonar em pessoas com covid-19 é de 7.800 em cada 100.000 e o risco de trombose venosa profunda é de 11.200 em cada 100.000 pessoas”.

Pegando no exemplo do DNS, para quem toma a pílula, e conforme a composição desta e o histórico da mulher, o risco de desenvolver coágulos sanguíneos num ano varia entre 50 e 120 casos em cada 100 mil.

Seja como for, temores à parte, não tem havido uma recusa da vacina pela população, antes pelo contrário. Maria conta que por norma, quando se chama alguém para tomar uma dose “vêm a correr”.

Como comenta o DNS, Jorge Barreto: “Os cabo-verdianos estão a reagir muito bem, há uma grande procura. Cada vez mais, há pessoas a contactar os serviços de saúde, a manifestar a sua vontade, tanto em termos individuais como institucionais. Infelizmente como não há doses de vacina suficientes vamos ter que gerir isso, de acordo com as orientações técnicas, com a situação epidemiológica e de acordo com os grupos de maior risco e que estão a ter maior probabilidade de serem internados e, até, de morrer por causa da covid. É o que nos estamos a fazer neste momento”.

Maiores de 70

A vacinação contra a covid corre pois a bom ritmo, consideram os entrevistados. E a boa experiência do país em termos de campanhas de vacinação certamente terá ajudado ao sucesso corrente (apenas ensombrado pela dificuldade de ter vacinas disponíveis em massa).

Entretanto, como referido, apenas os maiores de 60 são prioritários e de momento só estão a ser vacinados os maiores de 70, em idades decrescentes. Quer isto dizer que começou com as pessoas mais velhas numa idade média de 90 anos, e agora se está nos 70. E continua a descer, estando para breve o inicio da vacinação nos sexagenários.

De fora dos vacinados, estão, porém, os doentes acamados, mesmo que com idades superiores a 70 anos, devido às condições de aplicação da vacina, que impõem, entre outros, a necessidade de observância das reacções imediatas pós-inoculação.

“Não se recomenda fazer a vacina fora de um ambiente em que seja possível dar uma resposta, em termos de prestação de cuidados de saúde, caso aconteça qualquer reacção”, explica o DNS. Contudo, garante, as autoridades sanitárias já estão a “tentar encontrar melhor solução” para que essas pessoas possam “receber a sua vacina”.

Abaixo da idade prioritária, pessoas com morbilidades, independentemente do prognóstico médico, terão de esperar. De qualquer forma, como observam Ivanilda Santos e Jorge Barreto, a maior parte dos idosos também tem hipertensão, diabetes e outros problemas de saúde.

“São várias as pessoas que não estão neste grupo e que também têm problemas de saúde que são crónicos e que muitas vezes são graves, mas não há ainda doses para todos”, lamenta a coordenadora. Assim, prende-se com as estatísticas. “As pessoas que estão a morrer mais [de covid], que têm mais complicações e hospitalizações, são pessoas com idade superior a 60 anos, principalmente as pessoas que tem mais de 70 anos. Por isso é que se decidiu fazer assim, agora”.

As doses que o país actualmente tem são suficientes para todos estes idosos maiores de 70, garante.

E quando os idosos cuja vacina já está agendada não aparecem, aí sim, pode baixar-se na idade, embora ainda dentro dos grupos etários contemplados, para não haver desperdício.

Em breve, vai então ser vacinada a faixa 60-69, e depois, as pessoas com comorbilidades. Professores e outros, que não se insiram também nesses grupos, terão de esperar um pouco mais.

Entretanto, a procura por vacinas continua em várias frentes e o objectivo, várias vezes manifestado pelo chefe de Governo, Ulisses Correia e Silva, é vacinar pelo menos 70% da população cabo-verdiana até ao final do ano.

Mas ninguém arrisca dias exactos para a chegada de novas vacinas, até porque depende de muitos actores e cuidados logisticos. É expectável que no fim do mês/início de Maio já possam chegar mais vacinas, eventualmente da AstraZeneca. E conforme anunciou o DNS na conferência semanal sobre a situação da covid no país, esta segunda-feira, há já acordo para que sejam enviadas para Cabo Verde, as vacinas Sinovac e Sinopharm, produzidas na China. O envio é esperado ainda este mês, logo após aprovação pela OMS.

Na verdade, atingir os 70% de população vacinada e, assim, a imunidade de grupo só depende do acesso a vacinas. A logistica está montada, a funcionar, e a população a aderir em massa.

“Temos uma procura imensa de vacinas que não esperavamos”, congratula-se Ivanilda Santos. 

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Procedimento

Neste momento, há vacinas disponiveis em todas as delegacias de saúde. No espaço de um mês foram realizados dois envios, a partir de Santiago para todas as outras ilhas por via aérea (com o apoio de uma aeronave americana que esteve no país) e por via marítima (em embarcação da Guarda Costeira/Forças Armadas), e não há, garantem os responsáveis, ruptura de stock até agora. E não houve também qualquer constrangimento na distribuição e aplicação, mesmo em termos de cadeia de frio.

Quanto ao procedimento que se segue, a nível nacional, para a vacinação, este segue vários passos.

Primeiro, o utente interessado em vacinar-se deve inscrever-se para o efeito, podendo fazê-lo na Casa do Cidadão, Linha Verde (800 11 12, mas também 800 20 08) ou através da plataforma online criada para a inscrição.

A lista de interessados, compilada e, aprovada, é enviada para os centros de saúde. O utente é então chamado para ser vacinado. Caso não compareça, numa lógica de desperdício zero, a vacina é dada a outra pessoa. Quando chega ao local de vacinação (geralmente um Centro de Saúde), é-lhe medida a tensão arterial, a temperatura, e são-lhe colocadas algumas questões do foro médico. Feita a ficha, é então inoculado. Depois, deve aguardar meia hora no local, para assegurar que não existe qualquer reacção vacinal adversa.

“Por isso é que cada pessoa demora cerca de 1h”, desde que entra até poder sair do local de vacinação, conta a enfermeira Maria.

Entretanto, tratando-se de uma primeira dose, a segunda é imediatamente guardada para a pessoa vacinada.

* A pedido das entrevistadas, Maria, Luísa e Ana são nomes fictícios.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1012 de 21 de Abril de 2021. 

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Autoria:Sara Almeida,24 abr 2021 6:34

Editado porFretson Rocha  em  30 jul 2021 23:21

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