O que dizem os números (2016-2026)

PorSara Almeida,30 mai 2026 12:33

Três legislativas. Dez anos. Olhando apenas para os números, o que dizem eles quando se compara a evolução das Legislativas de 2016, 2021 e 2026? Dizem, por exemplo, que o PAICV de Francisco Carvalho vai governar com o apoio expresso de apenas cerca de 1 em cada 5 eleitores inscritos. E mostram a erosão do MpD de Ulisses Correia e Silva, que, em dez anos, perdeu 1 em cada 3 dos seus eleitores.

A 17 de Maio de 2026, o PAICV conquistou a maioria absoluta com 37 mandatos, tendo apenas pouca mais 4.000 votos do que quando perdeu em 2016, com 29 mandatos. Em dez anos, o crescimento do partido foi pequeno, mas no mesmo período o MpD perdeu quase 39.000 eleitores e a abstenção atingiu o recorde histórico de 53,5%.

O partido vencedor recebeu 90.175 votos. Os que ficaram em casa foram mais do dobro dos que votaram no PAICV.

O "partido" da abstenção

Ao longo de uma década, Cabo Verde ganhou mais de 66 mil novos eleitores inscritos. Mas esse crescimento não se traduziu em maior participação eleitoral. Pelo contrário: entre 2016 e 2026, o país perdeu cerca de 36,6 mil votantes efectivos.

Em 2016, votaram dois em cada três eleitores. Em 2021, já só votou pouco mais de metade. Em 2026, pela primeira vez, a maioria dos eleitores inscritos ficou em casa e a abstenção tornou-se a força dominante do acto eleitoral: num universo de 414 mil inscritos, apenas 192.746 pessoas decidiram quem governará o país nos próximos cinco anos.

O crescimento do recenseamento não foi uniforme. O círculo da Europa e Resto do Mundo registou o maior aumento de inscritos da década, com mais 62%. Boa Vista e Sal cresceram 45% e 36%, respectivamente, acompanhando dinâmicas migratórias internas e externas.

Mas o aumento da abstenção, sim, foi homogéneo. A participação caiu em todos os círculos eleitorais. Santiago Norte registou a subida mais acentuada nas ilhas, passando de 29% em 2016 para 55,5% em 2026. Na diáspora, o círculo da Europa atingiu quase 78% de abstenção.

Os votos brancos também aumentaram de forma constante: 1.849 em 2016, 2.353 em 2021 e 2.679 em 2026.

A Erosão do MpD

Existe um padrão apelidado de "desgaste de governação": quanto mais tempo um partido está no poder, mais difícil se torna manter a base eleitoral intacta. O MpD, tal como o PAICV antes dele, atravessou esse ciclo nos últimos dez anos, de forma inequívoca.

O partido venceu as eleições de 2016 com uma maioria folgada, conquistando 40 mandatos, a um PAICV que já levava 15 anos de governação. Em 2021 voltou a ganhar, mas já com sinais de desgaste.

Em 2026 perdeu com menos 7 deputados do que tinha quando chegou ao poder. No total, obteve menos 38.732 votos: uma redução de quase um terço da sua base eleitoral de 2016. Essa quebra, porém, não se traduziu num crescimento equivalente da oposição. Grande parte desses votos desapareceu, foi para a abstenção.

A erosão do MpD foi transversal a todo o território. A queda mais acentuada em termos percentuais foi em São Nicolau, onde o partido perdeu quase metade (47%) da sua base de 2016. Nos dois grandes círculos de Santiago, que concentram a maior fatia do eleitorado nacional, o MpD perdeu somados mais de 23.000 votos em dez anos. Desses, 13.000 foram em Santiago Sul, onde passou de 57,85% em 2016 para 45,8% em 2026.

Em Santiago Norte, apesar de ter continuado a ser o partido mais votado, o MpD perdeu mais de 10 mil votos em relação a 2016. A abstenção atingiu ali 55,5%, uma das mais elevadas do país.

O Sal foi onde o MpD mostrou maior resistência, com uma quebra de 17,99% face a 2016. O único círculo onde o partido cresceu foi o da diáspora africana, mas com mais 217 votos do que em 2016.

Nas três eleições, o MpD foi liderado por Ulisses Correia e Silva.

A eficiência do PAICV

Com a vitória de 2026, o PAICV, agora liderado por Francisco Carvalho, reverteu o ciclo de derrotas eleitorais anteriores encabeçadas por Janira Hopffer Almada.

O que os números mostram na trajectória do partido, em termos de votos absolutos, é uma grande estabilidade: em dez anos ganhou 4.097 eleitores, e com números bastante idênticos passou da derrota para a maioria absoluta.

O paradoxo é que o PAICV chega ao poder com uma representatividade sobre o universo total de eleitores inscritos inferior à que tinha quando perdeu as eleições. Em 2016, os seus votos correspondiam a 24,7% dos inscritos. Em 2021, a 22,2%. Em 2026, a 21,7%.

A explicação está no encolhimento do universo de votantes e na quebra do eleitorado adversário. Em 2026, os votos do PAICV passaram a valer mais na distribuição de mandatos porque havia muito menos votos em disputa.

Ainda assim, em percentagem de votos válidos, o partido cresceu de forma significativa: de 37,53% em 2016 para 46,8% em 2026.

Um dado interessante é que dos 4.097 novos votos numa década, 80% vieram da diáspora.

No círculo da Europa e Resto do Mundo, o partido passou de 3.381 para 5.969 votos, um aumento de 76,5%, acima do próprio crescimento do número de inscritos nesse círculo (62%) Nas Américas, também reforçou a sua presença, com um crescimento de cerca de 35%. O único círculo da diáspora onde o PAICV perdeu votos foi África.

Nas ilhas, o crescimento líquido foi de apenas 803 votos, concentrado essencialmente em São Vicente, Sal e Boa Vista. Neste último, o partido mais do que duplicou a sua base eleitoral em dez anos, num círculo onde os inscritos cresceram cerca de 45%. Ao contrário do padrão nacional, o crescimento do partido foi ali real também em votos absolutos: passou de 1.168 votos em 2016 para 2.690 em 2026.

Em Santiago Sul, após duas derrotas, o PAICV venceu em 2026 com menos votos absolutos do que tinha em 2021, mas com mais cerca de 900 votos do que em 2016. Ao longo da década manteve uma base eleitoral estável, com um crescimento de 3,6%.

Já no Fogo, o PAICV conquistou mais de metade dos votos expressos, mas registou o pior resultado em votos absolutos da década, menos cerca de 1.200 do que em 2016 e 2021, numa ilha onde a abstenção saltou de 32,7% para 51,9%.

Em Santo Antão, apesar de o partido ter terminado a década abaixo dos números de 2016, recuperou face às eleições de 2021.

São Vicente e o “colapso” da UCID

São Vicente voltou a confirmar o seu estatuto de círculo politicamente mais plural do arquipélago.

Em 2016, o MpD dominava o círculo e a UCID afirmava-se como segunda força política, com o mesmo número de deputados do PAICV. Em 2021, a UCID cresceu ainda mais e conseguiu empatar com o MpD em número de mandatos: quatro.

Cinco anos depois, o cenário alterou-se completamente.

A UCID perdeu cerca de metade dos seus votos em São Vicente, o único círculo pelo qual conseguiu eleger deputados, descendo de 35,17% para 18,1% e perdendo dois mandatos.

O MpD também recuou. Já o PAICV passou de terceira força política para partido mais votado no círculo, duplicando a representação parlamentar, de dois para quatro deputados.

Em 2016 e 2021, o partido, liderado por António Monteiro, concorreu aos 13 círculos eleitorais. Em 2026, agora encabeçado por João Santos Luís, concorreu apenas em 10.

As outras forças

O PTS, apesar de não ter eleito deputados em nenhuma das três eleições, foi o único partido extraparlamentar a crescer de forma contínua ao longo da década.

Em 2016, sob liderança de José Augusto Fernandes, recebeu apenas 107 votos. Em 2021, liderado por Carlos Lopes (Romeu de Lurdis) passou para 2.065. Em 2026, com Jónica Brito na presidência e concorrendo em seis círculos, alcançou 3.267 votos. Ou seja, o partido multiplicou por mais de 30 o número de votos obtidos em 2016.

Em Santiago Sul tornou-se a terceira força política, ultrapassando a UCID: 1.726 votos (3,1%) contra 806 (1,5%).

Por fim, o PP, que também concorreu em seis círculos, continua em declínio. Em dez anos, o partido liderado por Amândio Barbosa Vicente perdeu cerca de 32% da sua base eleitoral nacional, não indo além dos 525 votos em 2026. Em Santiago Norte, que era o seu maior bastião em 2016, registou uma queda de 70% na votação ao longo da década.

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Os números globais

Em 2026, o PAICV conquistou 37 deputados, com 90.175 votos e 46,8% dos votos válidos. O MpD ficou com 33 mandatos, 84.149 votos e 43,7%. A UCID elegeu dois deputados com 9.771 votos (5,1%).

Cinco anos antes, em 2021, o MpD tinha vencido com 38 deputados e 110.211 votos (50,04%), contra 30 deputados do PAICV, com 87.151 votos (39,57%), e quatro da UCID, com 19.796 votos (8,99%).

Há dez anos, em 2016, o MpD obteve uma maioria mais confortável: 40 deputados e 122.881 votos (53,58%). O PAICV elegeu 29 deputados com 86.078 votos (37,53%) e a UCID três deputados com 15.488 votos (6,75%), todos por São Vicente.

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Depois das urnas, o que acontece?

Conhecidos os resultados eleitorais, o Governo mantém-se em funções até à primeira reunião da nova Assembleia Nacional, prevista para decorrer entre 16 e 20 de Junho, data em que terá início a XI Legislatura.

Só nessa altura o executivo fica formalmente demitido, passando a assegurar apenas a gestão corrente dos negócios públicos.

Segue-se depois a nomeação do novo Primeiro-Ministro pelo Presidente da República, após auscultação dos partidos com assento parlamentar, e a consequente formação do novo Governo.

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Fontes: Dados de 2016 e 2021 retirados dos mapas oficiais da CNE nos anexos dos Boletins Oficiais. Dados de 2026 retirados do site eleições.cv, que apresentava o apuramento de 99,3% das mesas. Os valores apresentados poderão, assim, registar alterações residuais, sem impacto relevante na leitura global dos resultados.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.

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Autoria:Sara Almeida,30 mai 2026 12:33

Editado porAnilza Rocha  em  30 mai 2026 13:19

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