“País que vive em paz é um país abençoado”

PorSara Almeida,14 jan 2021 11:01

 António Jorge Delgado
António Jorge Delgadoarroz com atum

O 13 de Janeiro de 1991 foi um marco histórico em Cabo Verde. E como em tudo, há um antes e um depois daquele dia “D” (D de democracia). No âmbito das comemorações da emblemática efeméride, o Expresso das Ilhas conversou com quatro personalidades que viveram a data sob diferentes perspectivas. Nesta entrevista, António Jorge Delgado, da Associação Cívica Cristã, fala dos antecedentes, da data e dos 30 anos de democracia em Cabo Verde.

O que destacaria no processo que levou às primeiras eleições multipartidárias em Cabo Verde?

Destacaria, sem dúvida, em primeiro lugar, a determinação do Povo Cabo-verdiano na luta que desenvolveu a favor da liberdade e da democracia e em segundo lugar a sua capacidade de perdoar. Finalmente destacaria o bom senso e o patriotismo dos jovens que conduziram esse complexo processo de mudança. Parece mentira, mas Carlos Veiga, o homem que simboliza toda essa grande mudança política em Cabo Verde tinha apenas quarenta e um anos nessa altura.

Que recordações tem do dia 13 de Janeiro de 1991

Do dia 13 de Janeiro recordo-me sobretudo da alegria estampada no rosto das pessoas que pela primeira vez iriam votar em liberdade. 

Recordo-me igualmente, com muita emoção, de grandes momentos vividos ao longo do processo que culminaria nessa data histórica. Refiro-me, por exemplo, às peripécias à volta da apresentação do MpD em S. Vicente. Nesse dia aconteceu o seguinte:

A Associação cívica Cristã, contemporânea do MpD, foi contactada para organizar a recepção de Carlos Veiga e Eurico Monteiro em S. Vicente e colaborar na apresentação do Partido à população da ilha.

O avião que os deveria trazer a S. Vicente deveria chegar ao aeroporto de S. Pedro, às seis de manhã.

Sem meios, mas com um esforço enorme, conseguiu-se mobilizar os donos de alguns camiões e também muitas pessoas que tinham viatura própria para essa recepção.

Às seis de manhã tínhamos conseguido reunir cerca de meia dúzia de camiões cheios de gente, e uns dez automóveis.

Estávamos todos muito felizes porque estávamos convencidos de que tínhamos feito uma grande mobilização, tendo em conta que não tínhamos tido nenhum apoio da comunicação social e os recursos disponíveis eram realmente muito reduzidos.

A nossa felicidade duraria pouco. Esse voo havia sido cancelado e transferido para as cinco da tarde do mesmo dia. Um autêntico balde de água fria! Dá para imaginar a revolta, a gritaria que se seguiu ao anúncio, mas nada a fazer.

Regressamos à cidade frustrados e convencidos de que tinham conseguido boicotar a apresentação do MpD em S. Vicente.

Reuni-me com o Sr. padre Fidalgo, o líder da Associação, e com o Amarilo do Rosário, responsável pela logística, e decidiu-se que eu deveria redigir, em nome da Associação, um comunicado para denunciar a situação. Acontece que tinha ocorrido a mesma coisa em S. Tomé e Príncipe com um dos rostos da abertura política nesse arquipélago, na véspera, se não estou em erro. Aproveitamos a situação e fizemos um comunicado violento a acusar o regime das piores coisas, utilizando o caso de S. Tomé como exemplo de abuso de poder.

Bem, isto foi só uma parte:

Na altura uma fotocópia custava algum dinheiro. Fomos ao Djibla que nos ofereceu cem fotocópias do comunicado. Ficou combinado que deveríamos distribuir as fotocópias de tal forma que em cada bairro fossem colocados dez exemplares. Da Rua do Telegrafo, no centro da cidade, de onde saímos, até o mercado da Ribeirinha ficamos sem nenhuma fotocópia. O Amarilo aos berros só dizia: E agora, e agora… e os outros bairros.

Voltei-me para ele e disse-lhe: Damos a volta e recolhemos os comunicados que certamente foram atirados para o chão depois de lidos, e agora, sim, com mais rigor faremos a distribuição conforme combinado. Regressamos à rua do Telegrafo e não encontramos uma única fotocópia no Chão. Viemos a saber que as pessoas que receberam os comunicados levaram-nos para os respetivos bairros e no estilo de trabalho clandestino andaram de casa em casa informando que Cabo Verde já tinha um novo Partido e que dois dos seus dirigentes chegariam ao aeroporto às cinco de tarde.

À hora marcada, no aeroporto, foi uma enchente como nunca se viu. Gente, gente e mais gente! Camiões, automóveis que ninguém sabia donde vinham. Nunca houve nada igual em S. Vicente.

Há poucos dias estava a falar com o Veiga sobre isso e ele disse-me o seguinte: Quando o nosso avião fazia a aproximação ao aeroporto, vimos tanta gente, tantos carros, que olhei paro o Eurico e disse-lhe: Deve estar a chegar alguma pessoa muito importante em S. Vicente. E continuei: Mas não vi ninguém especial a entrar no avião. O Dick volta-se para mim (Carlos Veiga) e diz, a brincar: “Se calhar somos nós”, se calhar essa gente está a nossa espera.

Pois é, toda aquela gente estava mesmo à espera do Carlos Veiga e do Eurico Monteiro.

À noite, foi preciso colocar autofalantes voltados para o exterior porque o cinema transbordou de gente que encheu toda a Praça Nova. Simplesmente indiscritível. O João Monteiro, infelizmente já falecido, preso e torturado pelo regime de partido único, ao ver o que se passou no aeroporto, nem sequer esperou pela apresentação no Eden-Park. Antecipou o seu regresso a Santo com o objetivo de organizar o pessoal e receber esses dirigentes do novo Partido da mesma forma que foram recebidos em S. Vicente. Em Santo Antão também foi um sucesso total a receção do Carlos Veiga acompanhado do Eurico Monteiro.

Foi em S. Vicente que os dirigentes do MpD tomaram consciência que poderiam ganhar as eleições.

Eu costumo dizer que o MpD nasceu na Praia, mas que foi batizado em S. Vicente.

Que análise/ avaliação faz destes 30 anos de democracia

 Em primeiro lugar, valorizo imenso o espírito de tolerância e a compreensão que tem prevalecido entre nós, ainda que num ou noutro momento se possa detetar algum sinal de erosão em relação a esses valores fundamentais. Um país que vive na paz, que desenvolve uma cultura de paz, é um país abençoado.

Também é preciso dizer que Cabo verde nesses trinta anos não negligenciou os seus recursos humanos, pelo contrário. Com o objetivo de valorizar os seus recursos humanos Investiu muito em infraestruturas, desde escolas de ensino básico a universidades, passando por liceus e escolas técnicas. O número de alunos vem aumentado consideravelmente, ampliando assim a disponibilidade de licenciados e profissionais de várias áreas no mercado de trabalho sem que haja necessariamente uma verdadeira correspondência entre a quantidade e a qualidade das pessoas formadas. Cabo Verde precisa investir mais, muito mais, na investigação, nas novas tecnologias de informação e na ciência em geral. O Parque Tecnológico de Cabo Verde, em implementação no Mindelo e na Praia, aponta no bom caminho.

É hoje consensual que é preciso apostar na diversificação da nossa economia, e neste quadro necessário se torna avançar com mais velocidade no sentido da exploração racional dos nossos recursos marinhos

Cabo Verde precisa priorizar a formação de qualidade também em áreas novas como o design, cozinha de alto nível (chefs), bem como noutros domínios associados à melhoria da qualidade de vida, capazes de agregar valor à nossa oferta turística.

Já nem vale a pena falar da necessidade da massificação do ensino das línguas estrangeiras com destaque para o inglês, de tal maneira se tornou consensual essa intenção.

Tão importante como tudo isso é a urgência da criação de um sistema que garanta a fiscalização séria da qualidade do ensino ministrado a vários níveis, sobretudo ao nível universitário.

A sustentabilidade deveria constituir quase que uma obsessão positiva para o país, se é que se pode dar algum sentido positivo à palavra obsessão. O arquipélago é por natureza um território frágil que tem de ser tratado com toda delicadeza e muita inteligência. A regionalização de Cabo Verde constitui um imperativo num país que luta contra si próprio devido a um incontrolável apetite centralizador que o acompanha desde o nascimento.

Considerando tudo isso em conjunto, a minha avaliação é bastante positiva.

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Autoria:Sara Almeida,14 jan 2021 11:01

Editado porAndre Amaral  em  23 jan 2021 21:19

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