“A economia cabo-verdiana dificilmente seguirá a perspectiva optimista do Banco de Cabo Verde”

PorJorge Montezinho,7 jan 2024 9:03

João Estêvão, economista
João Estêvão, economista

Doutor em Economia pela Universidade Técnica de Lisboa, académico e investigador com trabalhos nas áreas da Economia do Desenvolvimento, Economia Institucional, História Económica e Social e Economia dos Pequenos Países Insulares e uma das vozes mais activas na diáspora, João Estêvão falou com o Expresso das Ilhas sobre as perspectivas económicas para o ano que agora começa.

Como é que a instabilidade política global, com os conflitos e as turbulências geopolíticas, afectará a economia em 2024?

A invasão da Ucrânia pela Rússia pôs em causa, definitivamente, a ordem global do pós-guerra fria. Tudo indica que caminhamos para uma nova ordem mundial, cujos contornos começam a ser construídos, mas cuja expressão geopolítica ainda não sabemos como será. Tudo indica que essa expressão se manifestará através de uma enorme conflitualidade entre as democracias e um vasto espaço mundial marcado por um conluio crescente entre as chamadas democracias “iliberais”, autocracias e teocracias. Acresce, ainda, que vivemos o período com maior número de conflitos activos desde o final da II Guerra Mundial, tais como os da Ucrânia, Palestina, Sudão, Iémen, etc. O ano de 2024 vai ser marcado por um conjunto amplo de processos eleitorais, alguns dos quais poderão ter um enorme impacte na ordem mundial e, por conseguinte, na evolução da economia global. Podemos destacar as eleições nos Estados Unidos (EUA), União Europeia, Reino Unido, Índia, Paquistão, Irão, México, Taiwan, Senegal, ou África do Sul. As eleições nos EUA serão decisivas, já que uma vitória de Donald Trump modificará por completo as relações de força mundiais e a posição de Washington em cada um desses conflitos, ou no seu confronto com a Rússia, a China e o Irão. As consequências poderão trazer, não só um enorme retrocesso humanitário e de direitos fundamentais, como o aumento da instabilidade mundial e económica, aprofundando a erosão das normas institucionais internacionais e aumentando a imprevisibilidade das economias mundiais. Se acrescentarmos o possível crescimento da extrema-direita e do populismo, mesmo nas suas formas de “nacionalismo”, teremos um quadro de grande imprevisibilidade, que poderá fazer de 2024 um ano de grande impulso para uma nova ordem mundial, que não sabemos como será, mas que poderá consubstanciar uma enorme fragilização das democracias e uma maior impunidade nas relações internacionais.

Qual será o desempenho do PIB mundial em 2024 e quais serão os principais impulsionadores e obstáculos?

O quadro de imprevisibilidade referido acima indica que o redesenho da ordem mundial continua um cenário em aberto, com múltiplas soluções possíveis. Por isso mesmo, as previsões para a economia mundial estão, mais do que nunca, extremamente condicionadas pelos contextos político e geopolítico e pelas suas evoluções possíveis. Mesmo sem considerar um cenário disruptivo da ordem mundial, as previsões de crescimento do produto mundial são hoje menos positivas do que eram no início de 2023. O FMI, por exemplo, considera no seu World Economic Outlook de Outubro de 2023, que o produto mundial deverá crescer na ordem dos 2,9%, em 2024, praticamente igual ao valor previsto para 2023 (3,0%) e bem abaixo das taxas anteriores ao período da pandemia. Trata-se de um resfriamento global, mas diferenciado por regiões: as economias desenvolvidas poderão ter um crescimento de 1,4%, enquanto as economias em desenvolvimento e as emergentes poderão crescer na ordem dos 4,0%, o que corresponde a uma estagnação relativamente às previsões para 2023. Esta situação é muito influenciada pelas quebras previsíveis nos países emergentes, nomeadamente, no caso da China. Dois tipos de causas são apontados para este cenário de resfriamento da recuperação económica mundial: (i) por um lado, as tendências longas resultantes da pandemia do Covid-19, a guerra resultante da invasão da Ucrânia e a crescente fragmentação geoeconómica; (ii) por outro lado, causas mais próximas, como os efeitos das políticas de aperto monetário aplicadas para reduzir a inflação, o abandono das políticas de apoio fiscal num quadro de dívidas elevadas, bem como as consequências de fenómenos ambientais extremos. Neste contexto de reduzidas margens monetárias e fiscais, a capacidade para amortecer novas crises é muito reduzido, o que poderá aumentar a volatilidade dos mercados perante situações de incerteza. A guerra na Palestina e os seus impactes no Médio Oriente poderão conduzir a novos choques petrolíferos, o que teria efeitos muito mais amplos sobre a economia mundial. Tudo isto poderá ser agravado por eventuais situações disruptivas na ordem mundial despoletadas pelos vários processos eleitorais que vão acontecer neste ano. Em resumo, as previsões para a economia mundial não são risonhas e poderão ser bem piores.

Que previsão podemos fazer para o desempenho da economia cabo-verdiana?

A previsão para a economia cabo-verdiana dificilmente seguirá a perspectiva optimista do Banco de Cabo Verde (BCV) e do próprio Governo. No seu Relatório de Política Monetária (RPM) de Outubro de 2023, o BCV reconheceu o abrandamento da actividade económica do país e apresentou várias causas (i) causas internas, como a redução gradual dos efeitos de arrastamento do processo de recuperação pós-crise da pandemia, os efeitos cumulativos da inflação, e as condições de financiamento mais apertadas que geraram menor propensão para o investimento; (ii) causas exteriores, como a conjuntura externa menos favorável, nomeadamente, dos principais parceiros económicos, o que se traduziu numa procura turística mais moderada e alguma incerteza sobre a oferta e os preços da energia. A previsão do BCV para 2024 é optimista quando antecipa que o crescimento do PIB em volume deverá recuperar com a melhoria dos rendimentos reais das famílias e com o aumento da procura turística que resultará da melhoria das condições económicas dos principais parceiros. Como vimos acima, não é esta a previsão que prevalece sobre a evolução da economia mundial. Concretamente, estando a recuperação da economia cabo-verdiana fortemente dependente da evolução do turismo mundial, essa possibilidade poderá não ser alcançada, pois não são muito favoráveis as perpectivas de crescimento da procura de turismo. Aliás, o próprio RPM reconhece que em 2023 a procura turística não cresceu como se esperava. Mas os dados divulgados pela Organização Mundial de Turismo mostram que, embora crescendo, a procura turística continua abaixo do período pré-pandemia. O World Economic Outlook também refere que, após uma forte recuperação, o impulso do turismo ao crescimento está a diminuir, o que está a traduzir-se num crescimento lento nos países fortemente dependentes da procura turística. Num cenário em que a economia mundial poderá ser afectada por diferentes fenómenos disruptivos, as viagens internacionais poderão voltar a sofrer quedas bruscas. Cabo Verde continua a ser muito dependente do turismo e não são previsíveis grandes alterações na estrutura produtiva do país. Ora, num quadro muito difícil para a economia mundial não sei se podemos falar em sectores promissores, pois dificilmente haverá espaço para crescimento de outras actividades, até porque o país não tem mostrado capacidade para fazer emergir esses sectores, nem sequer através do aproveitamento do motor que poderia representar o crescimento do turismo. Esta é a razão principal de alguns problemas estruturais do país.

Quais poderemos considerar os maiores desafios que a economia cabo-verdiana poderá enfrentar em 2024?

Cabo Verde tem defrontado uma sucessão de choques (pandemia, secas, efeitos da guerra na Ucrânia) que traduzem abalos conjunturais, mas que encobrem um problema central – as debilidades estruturais da economia e da sociedade cabo-verdianas. Este problema coloca um conjunto de desafios fundamentais, que resultam: (i) da progressiva diminuição da capacidade potencial da economia; (ii) da queda da dimensão industrial do país; (iii) da fraca capacidade de criação de emprego; e (iv) da incapacidade de enfrentar o problema da geografia insular. No Relatório do Estado da Economia de Cabo Verde de 2017, o BCV estimou, pela primeira vez, a evolução do produto potencial da economia cabo-verdiana. A estimativa permitiu observar uma tendência de desaceleração, que foi atribuída à redução do contributo do stock de capital para o crescimento do produto potencial e aos contributos negativos da produtividade total, num quadro de manutenção dos contributos do emprego potencial. A baixa produtividade da economia cabo-verdiana impede um crescimento económico mais robusto, como provou o Country Economic Memorandum de Cabo Verde publicado pelo Banco Mundial em 2023. A queda da dimensão industrial do país explica a fraca capacidade de criação de emprego, com consequências evidentes sobre o novo impulso da emigração no país. A incapacidade de enfrentar a geografia insular de Cabo Verde gerou um grande desequilíbrio de actividades económicas e de rendimentos entre as ilhas, e tem impedido a construção de uma economia interna indispensável para sustentar um crescimento económico mais dinâmico e mais harmonioso. A resolução do problema da geografia só poderá ser alcançada com infra-estruturas adequadas (portos e sistemas logísticos) e com um sistema de transportes devidamente desenhado, eficaz e eficiente, que permita garantir a mobilidade interna de pessoas, bens e serviços. E só essa resolução permitirá que o turismo possa constituir um motor da transformação produtiva no país.

Como é que as políticas comerciais e a cooperação internacional influenciarão a economia global em 2024, considerando questões como o protecionismo e as negociações comerciais multilaterais?

Em 2024, a economia mundial continuará a ser fortemente influenciada pelas decisões de política comercial e de cooperação internacional, num quadro já marcado pelo fenómeno da fragmentação dos mercados. A invasão da Ucrânia pela Rússia causou uma importante fragmentação dos mercados de produtos primários e a continuação das tensões geopolíticas poderá piorar a situação ainda mais. No pós-guerra fria, os mercados ficaram cada vez mais integrados devido à liberalização do comércio internacional, à inovação tecnológica e à queda dos custos de transportes. Com a guerra na Ucrânia, o processo regrediu drasticamente, à medida que mercadorias como o petróleo, gás natural e cereais eram utilizados como armas de pressão. Este processo de fragmentação dos mercados contribuiu para o crescimento da inflação e da insegurança alimentar e pelo declínio económico global. Se persistirem as tensões geopolíticas, agravarem as guerras em curso e se se observarem importantes movimentos disruptivos na ordem mundial, a fragmentação dos mercados ganhará um novo impulso e os seus efeitos voltarão a ser sentidos: volatilidade dos preços dos bens primários, nova dinâmica inflacionária e regresso das políticas de aperto monetário, a par de um novo movimento de recuo da globalização e de maior orientação para políticas comerciais restritivas e de maior propensão para aumento do comércio regional. Neste quadro, a economia cabo-verdiana poderá defrontar os mesmos problemas já observados: os que resultam da sua condição de país importador, nomeadamente, as dificuldades com a energia e produtos primários, e os problemas que resultam da sua condição de país dependente da procura turística. Por outras palavras, Cabo Verde continuará a sofrer da sua dependência quase total das importações e da impossibilidade de poder contar com uma região económica próxima capaz de ajudar a amortecer os efeitos da crise internacional.

2023 foi o ano do aumento da desigualdade, com todas as incertezas que ainda existem, será que 2024 será diferente, ou podemos contar com uma disparidade ainda maior?

A redução da desigualdade só é possível com uma maior dinâmica de crescimento económico e de transformação produtiva, a principal fonte de criação de emprego. Em Cabo Verde, como referi acima, o declínio do produto potencial, a ausência de transformação produtiva e a excessiva dependência do turismo não permitem gerar novas dinâmicas de criação de emprego. As dificuldades de criação de emprego continuarão a penalizar as camadas mais pobres da população, reproduzir a situação de insuficiência alimentar e pressionar o movimento de emigração económica. Penso, portanto, que a situação em 2024 não será diferente, mas se se agudizarem as condições da economia mundial, ela poderá ser ainda pior.

As condições climáticas vão continuar a influenciar a economia, faz bem Cabo Verde, e os restantes SIDS, ao exigirem compensações por causa da maneira como o clima está a afectar estas nações?

Penso que sim, que Cabo Verde deve participar nos movimentos que exigem compensações dos países mais poluidores, que deve continuar a negociar acordos de troca da dívida por investimentos climáticos, etc. Mas Cabo Verde também tem de procurar outras opções de política, nomeadamente no campo do turismo, que tenham em conta os efeitos climáticos previsíveis. O crescimento da política habitacional nas orlas costeiras de Cabo Verde não parece ter em conta os efeitos previsíveis das modificações climáticas. São zonas muito baixas, nomeadamente, nas Ilhas do Sal e da Boavista, o que faz temer uma eventual subida do nível dos oceanos. O que poderá acontecer caso se verifique essa subida?

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1153 de 3 de Janeiro de 2024. 

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Autoria:Jorge Montezinho,7 jan 2024 9:03

Editado porEdisângela Tavares  em  27 fev 2024 23:29

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