“As ineficiências na logística de carga enfraquecem as cadeias de abastecimento domésticas, particularmente nas pescas e no agronegócio, onde o transporte inter-ilhas pouco fiável aumenta os custos, eleva os riscos de deterioração e desincentiva o investimento privado em atividades que acrescentam valor”. Quem o diz é o Banco Mundial (BM), no relatório Analisando a relação entre a conectividade inter-ilhas e o crescimento económico.
Segundo a instituição, o sistema actual de conectividade baseia-se nos papéis complementares do transporte aéreo e marítimo, mas nenhum dos modos funciona eficazmente e a coordenação entre eles mantém-se limitada. “Os serviços aéreos domésticos são escassos, voláteis e dispendiosos, com rotatividade repetida de operadores, frotas reduzidas e elevada exposição orçamental associada às companhias aéreas públicas. O transporte marítimo, embora seja a espinha dorsal do transporte doméstico de mercadorias e passageiros, sofre de qualidade desigual do serviço, frotas envelhecidas, incentivos de desempenho limitados e mecanismos de compensação que não são totalmente transparentes nem baseados em regras”.
Estes bloqueios na conectividade têm consequências económicas directas: reforçam a concentração do turismo no Sal e na Boa Vista, limitando a expansão para outras ilhas e restringindo o turismo multidestino. As tarifas elevadas em relação aos rendimentos e a frequência limitada dos serviços impõem um "imposto sobre a mobilidade" às famílias e empresas, fragmentando os mercados e reduzindo a produtividade.
O turismo, como se sabe, é fundamental para a economia, tanto em termos de produção (25% do PIB) como de emprego. O crescimento do número de turistas desde a pandemia foi impulsionado por uma forte procura europeia e por investimentos de grande escala em capacidade hoteleira. No entanto, a expansão concentrou em grande parte – 95% – do investimento turístico no Sal e na Boa Vista, com o modelo all inclusive a representar 84% dos visitantes em 2024.
Em parte, diz o BM, isto deve-se às limitadas restrições de conectividade entre as ilhas, “já que os pacotes raramente incluem itinerários para várias ilhas, muitas vezes devido a dificuldades com a fiabilidade do transporte interno”. O resultado? Os efeitos de arrastamento sobre a economia local são modestos: uma grande parte dos alimentos e dos factores de produção dos principais resorts é importada devido à falta de fiabilidade no fornecimento local. “As estimativas sugerem que apenas uma pequena percentagem do total das despesas turísticas é retida localmente, comparado com perto de 30% em destinos insulares mais diversificados, como as Ilhas Canárias ou os Açores”, refere o documento.
O turismo representa cerca de 17–20% do consumo nacional de carne, peixe e produtos frescos, mas cerca de 80% dos alimentos e bebidas utilizados em hotéis e resorts são importados. Embora os padrões de qualidade e a escala de produção desempenhem um papel importante, a fiabilidade logística constitui um factor crítico: produtores e compradores enfrentam riscos quando os horários de transporte são imprevisíveis e a capacidade da cadeia de frio é limitada.
Segundo o Banco Mundial, a estrutura da participação do Estado no sector da conectividade contribui para estas fragilidades. “O Estado actua simultaneamente como decisor político, regulador, proprietário, financiador e, por vezes, modelador do mercado. Isto obscurece os incentivos, enfraquece a neutralidade competitiva e concentra o risco orçamental”.
Além disso, “a aviação é responsável pela maior parte dos passivos contingentes explícitos através de garantias e capitalizações das companhias aéreas públicas, e embora o transporte marítimo gere stocks de garantias mais baixo, existem obrigações fiscais recorrentes através de compensações de concessão e subsídios”, sublinha o relatório.
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Como as restrições de conectividade afectam o desenvolvimento da cadeia de valor
No sector das pescas, os estrangulamentos logísticos em portos secundários como Palmeira (Sal) e Porto Novo (Santo Antão) foram identificados em programas de investimento recentes como factores que limitam o desembarque, armazenamento e transporte eficientes de produtos de pesca. Atrasos nas ligações marítimas e lacunas na fiabilidade da cadeia de frio aumentam os riscos de deterioração e reduzem a qualidade do produto, especialmente para operadores que procuram abastecer instalações de processamento ou mercados de exportação a partir de ilhas com actividade pesqueira significativa. Estas condições reduzem os incentivos para o investimento privado em actividades de valor acrescentado, como processamento e embalagem, reforçando a predominância de operações de pequena escala e orientadas para o mercado local.
No agronegócio, os produtores em ilhas como Santo Antão e Brava enfrentam dificuldades em transportar produtos perecíveis, incluindo legumes e frutas frescas, para centros de consumo como Santiago e Sal, onde se concentra a procura turística. Relatos de comerciantes na Brava destacaram custos logísticos adicionais e perturbações no abastecimento associados às práticas de serviço marítimo e à concorrência limitada no transporte de carga. Estas restrições contribuem para a dispersão de preços entre as ilhas e desencorajam a especialização, a agregação da produção e o investimento em sistemas agrícolas de maior produtividade.
No sector do turismo, as perturbações nos serviços aéreos domésticos nos últimos anos afectaram a mobilidade dos visitantes entre ilhas e a viabilidade de pacotes turísticos com múltiplos destinos que combinam, por exemplo, Sal ou Boa Vista com Santiago, São Vicente ou Santo Antão. Horários pouco fiáveis e custos elevados de transporte aumentam os riscos operacionais enfrentados pelos operadores turísticos e empresas de hotelaria, além de encarecerem o abastecimento de hotéis e restaurantes com alimentos e outros consumos provenientes de diferentes ilhas. A fraca conectividade limita ainda mais a mobilidade da mão-de-obra, afectando a capacidade das empresas de turismo em destinos de rápido crescimento de aceder a competências especializadas e a trabalhadores sazonais.
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Os principais obstáculos à conectividade entre as ilhas não se resumem à existência de infra-estruturas suficientes, mas sim à eficácia dos serviços prestados. Embora os voos internacionais tenham recuperado e os serviços marítimos continuem em funcionamento, os desafios persistentes em termos de fiabilidade, custo e alcance geográfico impedem que o sistema seja verdadeiramente eficaz. Consequentemente, estas limitações prejudicam os lucros do turismo, fragmentam os mercados internos e limitam o crescimento económico fora das maiores ilhas.
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Reformas prioritárias para melhorar conectividade:
- Adopção e implementação do pacote regulamentar da aviação já preparado para permitir a entrada de empresas privadas à escala adequada (aeronaves pequenas, helicópteros, serviços de nicho).
- Transição dos regimes de Obrigação de Serviço Público (PSO) nos sectores da aviação e do transporte marítimo para contratos competitivos, com prazos definidos e baseados no desempenho.
- Reforço da regulação económica, da transparência de dados e da monitorização do mercado.
- Modernização do desenho de concessões marítimas, estruturas tarifárias e mecanismos de indexação de subsídios.
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A economia em 2025
A economia nacional cresceu cerca de 6,3% em 2025. Esta percentagem reflecte uma forte procura dos mercados europeus e o aumento da capacidade de voos, o que elevou as chegadas a níveis recorde. Já a inflação aumentou para 2,3% durante o ano, reflectindo o impacto da forte procura interna e a transferência tardia dos ajustamentos de preços anteriores. O crescimento do sector dos serviços, que emprega mais de dois terços dos trabalhadores, e as entradas de remessas contribuíram para reduzir a pobreza de 53,8% em 2024 para 51,2% em 2025, retirando aproximadamente 12.000 pessoas da pobreza.
O desempenho orçamental no ano passado foi sólido, diz o BM, com uma arrecadação de receitas sem precedentes, que colocou o saldo global num superavit de 1% do PIB – o primeiro superavit global desde 2007. As receitas globais atingiram 29,9% do PIB, com o desempenho impulsionado principalmente pelo aumento das cobranças fiscais (16,8% em termos homólogos), uma vez que as receitas de IVA e impostos sobre o rendimento foram reforçadas pela cobrança de atrasos fiscais ligados ao término das moratórias de crédito devido à COVID-19 e pela maior eficiência na cobrança.

A dívida pública continuou a sua trajetória descendente, com o rácio dívida/PIB do governo central a diminuir para 100,7% em 2025. Esta redução foi suportada por “um desempenho orçamental robusto” e pelo crescimento do PIB nominal. No entanto, apesar desta melhoria, o serviço da dívida continua a ser uma restrição significativa ao orçamento, absorvendo 34,2% das receitas, um valor que aumenta para 46,3% se as obrigações das empresas públicas forem incluídas. “Embora o rácio dívida/PIB tenha caído, o elevado custo do endividamento interno e os perfis de vencimento mais curtos continuam a exigir uma abordagem cautelosa na gestão da dívida e uma contínua dependência de financiamento concessional”, sublinha o Banco Mundial.
Para este ano, o BM prevê que o crescimento real do PIB abrande para 4,8%, “refletindo os efeitos negativos do conflito no Médio Oriente”, e estabilize em cerca de 5,1% a médio prazo. Esta perspetiva é moldada pela esperada normalização do crescimento do turismo após a recuperação recorde pós-pandemia e pelos desafios emergentes decorrentes da instabilidade global, nomeadamente o conflito crescente no Médio Oriente. A inflação deve aumentar para 3,2%, “o que poderá reduzir o consumo privado, corroendo o poder de compra das famílias”.
O balanço de riscos para esta perspectiva inclina-se para o lado negativo, principalmente devido a vulnerabilidades externas e passivos contingentes persistentes. Um crescimento moderado nos principais mercados europeus pode enfraquecer a procura turística (a Europa representa 93% do total de visitantes). No entanto, os efeitos de substituição poderão mitigar este impacto, permitindo que o país beneficie de uma realocação dos fluxos turísticos de destinos mais caros ou de maior risco no Médio Oriente, caso persistam tensões geopolíticas. A escalada do conflito no Médio Oriente poderá levar a uma maior volatilidade nos preços globais dos alimentos e da energia, exercendo uma pressão renovada sobre a inflação e a situação orçamental, caso as autoridades introduzam medidas para proteger os agregados familiares e as empresas.
A nível interno, o principal risco envolve a saúde financeira das empresas públicas; se “as privatizações planeadas sejam adiadas, o governo poderá enfrentar uma maior pressão devido a passivos contingentes, o que poderá travar a trajetória descendente da dívida pública”. Além disso, Cabo Verde continua altamente suscetível a choques relacionados com o clima, semelhantes aos eventos de inundação de 2025, que podem perturbar a produção agrícola e exigir despesas significativas não orçamentadas. “O reforço das reservas fiscais e a aceleração das reformas das empresas públicas são medidas essenciais para garantir a resiliência macroeconómica a longo prazo contra estes choques e proteger os ganhos fiscais recentes de pressões imprevistas, internas ou globais”, avisa o Banco Mundial.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1286 de 22 de Julho de 2026.
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