Trump e a agenda MAGA
2025 foi um ano marcado pelo regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e todas as mudanças internas e externas que a sua política MAGA trouxe. Com a sua tomada de posse a 20 de Janeiro, iniciou-se uma das administrações mais disruptivas da história americana, com Trump assinando mais de 200 ordens executivas nos primeiros oito meses da sua segunda presidência.
Começando pela "guerra" à imigração, a nova administração reviu inúmeras leis, tentou restringir a cidadania por nascimento e iniciou procedimentos para deportações em massa, incluindo rusgas nacionais pelo ICE. De facto, a sua agenda foi cumprida de imediato. Ainda Janeiro não terminara quando começaram as rusgas em cidades como Chicago e Los Angeles. Ao longo do primeiro ano de mandato, Trump impôs sucessivas restrições à entrada no país, afectando cidadãos de dezenas de Estados e gerando protestos diplomáticos recorrentes. Entretanto, até Setembro, cerca de dois milhões de imigrantes sem documentos tinham sido deportados ou saído voluntariamente dos EUA, de acordo com dados do Departamento de Segurança Interna.
A viragem proteccionista de 2025 teve também repercussões imediatas e globais a nível comercial. A administração Trump impôs tarifas sobre produtos estrangeiros, gerando respostas retaliatórias, negociações profundas e perturbações nas cadeias de abastecimento. Diferentes sectores sentiram o impacto, e economias inteiras, nomeadamente em África, foram afectadas por estas políticas. As referidas negociações comerciais permitiram reduzir algumas tarifas, mas os danos já se faziam sentir, sobretudo em países dependentes das exportações para os EUA.
Paralelamente, políticas anti-LGBTQ+ e a eliminação de programas de diversidade e inclusão evidenciaram a extensão da agenda, enquanto cortes drásticos em programas de saúde global e de ajuda internacional deixaram milhões de pessoas sem apoio.
O fim da ajuda americana
Na política externa, a mudança foi estrutural. Nos primeiros dias de mandato, Trump congelou fundos da ajuda externa e posteriormente a sua administração avançou com a fusão da USAID no Departamento de Estado, reduzindo o orçamento em 40%. No início de Julho, a USAID foi formalmente desmantelada. Dezenas de milhares de milhões de dólares em programas humanitários foram cancelados, incluindo medicamentos destinados a África. Vários outros cortes em ajuda externa e programas multilaterais foram também levados a cabo como parte de revisões orçamentais.
Este vazio foi, de certa forma, visto como uma oportunidade para China e restante bloco BRICS+, que aumentaram os seus programas de investimento em infra-estruturas em África e na América Latina, expandindo assim a sua influência. Em Agosto, por exemplo, Pequim assinou novos pactos de infra-estruturas com vários países africanos que tinham perdido o apoio americano. A política externa de Washington, no entanto, voltou a estar no centro das atenções, desta feita pela positiva, com Trump a promover iniciativas de paz no Médio Oriente e Ucrânia, tentando reposicionar os EUA num papel de árbitro diplomático.
Gaza: armistício vigiado
Depois de mais de dois anos de combates intensos, 2025 trouxe avanços diplomáticos importantes em Gaza. A 18 de Março, uma trégua temporária colapsou, mas a escalada de violência empurrou as partes para negociações sérias, sob mediação de Washington e outros parceiros. Assim, a 29 de Setembro, Trump anunciou um plano de paz de 20 pontos destinado a pôr fim à guerra em Gaza e à crise humanitária.

O plano, que incluía um cessar-fogo imediato, a libertação de todos os reféns em até 72 horas e a retirada faseada das forças israelitas, foi sustentado por ampla diplomacia internacional, com oito países árabes e muçulmanos a saudar a iniciativa. Nas semanas seguintes, o Hamas aceitou parcialmente a proposta, solicitando negociações adicionais. Posteriormente, Israel e Hamas assinaram a primeira fase do acordo, garantindo o cessar-fogo.
Em Novembro, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução apoiando o plano, incluindo uma força internacional de estabilização e autoridade de transição para supervisionar a segurança e reconstrução da Faixa. Até ao fim de Dezembro, apesar de alguma melhoria humanitária, cerca de 75% da população de Gaza continuava em insegurança alimentar grave, e confrontos esporádicos evidenciavam que a paz e a reconstrução permanecem desafios complexos.
Ucrânia: paz adiada
Na Ucrânia, o guião repetiu-se com contornos mais sombrios. Em Agosto, Trump e Vladimir Putin encontraram-se no Alasca, numa cimeira à porta fechada cujos detalhes nunca foram revelados. Meses depois, em Outubro, a Rússia compartilhou um documento com as condições para o fim da guerra com o governo Trump. O plano serviu de base para intensas negociações. No mês seguinte, os EUA apresentaram uma proposta, que a Ucrânia aceitou nos seus termos essenciais, e que a Rússia rejeitou.

Mais acertos e a 24 de Dezembro, Zelensky apresentou um plano de paz, concebido com apoio norte-americano, que propõe cessar-fogo, criação de zonas desmilitarizadas no Donbas, garantias de segurança semelhantes às da NATO, um pacote de desenvolvimento económico para reconstruir a Ucrânia e a troca de prisioneiros, com supervisão de um Conselho de Paz. Pontos sensíveis permanecem por resolver, nomeadamente o estatuto do Donbas e da central nuclear de Zaporizhzhia, que exigem negociações adicionais antes de qualquer assinatura definitiva.
Dois dias depois, o Kremlin anunciou que a Rússia retomou os contactos com os EUA, depois de analisar o plano de paz revisto apresentado pela Ucrânia.
No dia 29 de Dezembro, os EUA ofereceram à Ucrânia "garantias de segurança sólidas" contra a invasora Rússia por um período de 15 anos, renovável. 2025 termina com uma espécie de cessar-fogo técnico, ainda sem tratado de paz definitivo. Há, pois, progressos, mas por toda Europa continua a situação de "paz fria”, que marcou o ano.
Guerra dos 12 dias
Mais uma guerra, desta feita, uma bem mais curta. Em Junho de 2025, o mundo prendeu a respiração durante o confronto directo mais intenso da história entre Israel e o Irão, conhecido como a Guerra dos 12 Dias. Após anos de guerra nas sombras, o conflito escalou para ataques aéreos massivos: Israel atingiu infra-estruturas críticas e instalações nucleares iranianas, enquanto o Irão respondeu com centenas de mísseis balísticos e drones, a maioria interceptada. Um cessar-fogo rápido, mediado pela administração Trump, evitou a guerra total, mas deixou quase mil mortos.

Sudão: a guerra esquecida
Menos mediática, mas uma das guerras mais brutais em curso, o conflito que eclodiu em Abril de 2023 entre o Exército Sudanês e as Forças de Apoio Rápido (RSF) continuou ao longo de 2025, com impacto humanitário devastador e deslocações massivas de civis. Este ano, os combates intensificaram-se em Cordofão e Darfur, com ataques de drones a causar numerosas baixas civis.

Em Janeiro, os EUA declararam formalmente que a RSF cometeu genocídio, mas a situação humanitária pouco melhorou desde então. Tentativas de negociações internacionais falharam, e a violência prosseguiu.
Em Outubro, a RSF cercou e tomou posições militares em El Fasher, na região de Darfur, após cerca de 18 meses de cerco prolongado. A captura da sede da divisão do Exército Sudanês, um dos últimos bastiões governamentais no oeste do país, marcou um ponto de inflexão. Em Dezembro, o primeiro-ministro sudanês apresentou um plano de paz perante o Conselho de Segurança da ONU, mas a RSF rejeitou a proposta.
Com mais de 12 milhões de deslocados, o Sudão enfrenta a maior crise de fome do século XXI. O conflito foi, aliás, descrito pela União Africana como a pior crise humanitária do mundo.
África: instabilidade e protestos
Em 2025, o continente africano continuou a enfrentar profundas turbulências políticas e de segurança. Destaque para a Guiné-Bissau, onde a 26 de Novembro, uma junta militar tomou o poder, interrompendo o processo eleitoral. A CEDEAO repudiou o golpe, rejeitou o plano de transição militar e ameaçou sanções, suspendendo a Guiné-Bissau dos seus órgãos de decisão. A União Africana e a CPLP adoptaram posições semelhantes.
A crise guineense foi um dos sinais mais visíveis de uma instabilidade mais ampla na África Ocidental e no Sahel, onde golpes e tentativas de tomada militar do poder se multiplicaram. Em Dezembro, tentativas de golpe no Benim voltaram a expor o clima de tensão regional.

Quanto aos protestos, salientam-se os vividos em Madagáscar, onde o ano foi marcado por uma crise política prolongada, com protestos recorrentes contra o custo de vida, a corrupção e a exclusão social. Aqui, como em outros pontos do globo, os protestos foram liderados pela chamada Geração Z, que emergiu como uma força de pressão, desafiando regimes militares e elites políticas.
Remilitarização da Europa
Em 2025, o retorno do isolacionismo americano e a continuação da guerra na Ucrânia impulsionaram uma remilitarização sem precedentes na Europa. A União Europeia atingiu um recorde histórico de 381 mil milhões de euros em gastos com armamento, com vários países aproximando-se dos 3% ou 4% do PIB. O Plano para Rearmar a Europa incluiu um fundo de 800 mil milhões de euros para os próximos quatro anos, visando reduzir a dependência tecnológica dos EUA. Pela primeira vez, Bruxelas permitiu que os investimentos em defesa tivessem maior flexibilidade nas regras do défice.
Efeitos da guerra na Ucrânia. Entretanto, em Dezembro, os líderes da UE aprovaram um pacote de apoio de 90 mil milhões de euros para garantir a sobrevivência económica de Kiev nos próximos dois anos.
COP30: compromisso incompleto
Crises climáticas e deslocações de populações voltaram a dominar as manchetes em 2025, confirmado-se como o ano mais quente de que há registo. Das inundações catastróficas na Europa Central às ondas de calor extremas, com temperaturas a atingir os 46°C em Espanha, passando pelos incêndios sem precedentes, os fenómenos extremos reforçaram a pressão sobre a resposta global às alterações climáticas.
Entre 7 e 22 de Novembro, a COP30, realizada em Belém, colocou a Amazónia no centro da diplomacia climática. A conferência aprovou os "Indicadores de Adaptação de Belém" e assumiu o compromisso de escalar o financiamento climático para 1,3 biliões de dólares, com o Brasil a mobilizar promessas adicionais para a protecção das florestas tropicais. No entanto, o documento final evitou qualquer referência explícita ao fim dos combustíveis fósseis, reflectindo as dificuldades em conciliar interesses divergentes.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1257 de 31 de Dezembro de 2025.
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