FIDEL DE PINA: Quem se abstem, depois não pode reclamar

PorJorge Montezinho,17 nov 2019 10:19

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Desemprego, precariedade laboral, habitação, educação. Estes são os principais constrangimentos que os jovens enfrentam em Cabo Verde, na análise do líder da JPAI, Fidel de Pina. Licenciado em Direito e Ciências Jurídicas e presidente da Juventude do Partido Africano para a Independência há dois anos, Fidel de Pina chama ainda a atenção para o possível aparecimento de movimentos populistas no país, fenómeno global que pode chegar ao arquipélago a qualquer momento.

Quais considera serem os principais desafios da juventude cabo-verdiana actualmente? 

Antes de mais, quero dizer que a juventude cabo-verdiana está a passar por momentos difíceis. O actual governo prometeu mundos e fundos na campanha de 2016, isso fez com que os jovens tivessem um peso enorme e decisivo nas últimas eleições e, naturalmente havia uma grande espectativa face ao actual governo. Lamentavelmente, de todas as camadas sociais que temos, a juventude cabo-verdiana é a que mais sofre. O primeiro grande desafio é o desemprego. Neste momento, na camada juvenil, é gritante, e, pior, os jovens sentem que não há esperança, nem oportunidades. Mais, muitos já estão a pensar em emigrar. Aliás, já temos assistido à migração do campo para as cidades, das ilhas mais periféricas para as que têm mais densidade populacional, mas também estamos a perder jovens para o exterior. Não estamos a perder só a juventude menos qualificada, mas temos constatado que estamos igualmente a perder quadros. Outro desafio tem a ver com a precariedade laboral, em Cabo Verde, apesar do país estar a crescer cinco vezes mais, continuamos a sofrer com este problema. Temos jovens que estão em condições indignas, há um grande número de jovens que, apesar de terem licenciaturas e mestrados, vivem com subsídios e não com salários, porque estão em estágios profissionais – e isso não é emprego porque não há vínculo profissional, é uma fase experimental. E quando recebem salários, estamos a falar de rendimentos que mal lhes dá para cobrir todas as despesas, isso reflecte-se na capacidade de educar os filhos, na capacidade de ter uma habitação, ou de ter uma casa digna. Temos visto isso nas ilhas da Boa Vista ou do Sal, temos jovens que trabalham em hotéis de cinco estrelas que não têm casa-de-banho em casa, temos jovens que vivem em barracas, temos jovens que vivem num quarto partilhado com mais sete ou oito. Isso leva-me a outro problema, o da habitação jovem. Se o jovem não tem um emprego digno, dificilmente irá pensar em ter uma habitação própria e, por outro lado, não há medidas para a habitação jovem. O governo aumentou a idade da bonificação de juros [até aos 37 anos], mas na nossa realidade devia-se aumentar o limite de idade. Em Cabo Verde, um jovem termina a sua formação cada vez mais tarde e depois tem de pagar essa formação, só conseguindo alguma estabilidade a partir dos 40 anos. Estivemos nos bancos e não há um caso de bonificação, porque antes de chegar à bonificação é preciso estabelecer a taxa de esforço, analisar os rendimentos e ver as garantias bancárias, só depois é que se chega à bonificação. Sem as condições anteriores, é uma medida que não tem efeito. Só uma medida não basta. Outro problema é a questão da formação superior. Primeiro, a investigação científica é nula. Um país que quer desenvolver-se tem de apostar na investigação. Um país que quer desenvolver-se tem de levar os problemas para dentro da universidade para serem estudados e discutidos.

Pegando na questão da educação, segundo o Banco Mundial falta qualidade e relevância ao ensino do país, e este problema não é de agora. 

Primeiro, temos de reconhecer que nos últimos 15 anos houve a democratização do ensino superior em Cabo Verde, criaram-se mais oportunidades, mas infelizmente às vezes dá uma sensação que quem tem melhores rendimentos envia os filhos para estudarem fora, quem tem menos acaba por apostar na formação nacional. No entanto, acho que houve um grande avanço, principalmente por parte da UNI-CV que permite uma política para a educação. A grande lacuna que temos agora é o ensino secundário, porque não estamos a consegur melhorar a qualidade e muitos alunos chegam ao ensino superior com muitas deficiências e muitas dificuldades e isso vai condicionar a sua formação académica. Acho que é preciso uma aposta séria no ensino secundário, reforçar as competências, línguas e tecnologia à cabeça. Do que precisamos? De mais investimentos do governo, mais bolsas, repensando também esta questão, porque só propinas às vezes não chega. Temos muitos jovens que têm bolsa, mas vão para as aulas sem comer, ou não conseguem carregar uma pendrive para terem internet, ou não conseguem comprar livros, ou vivem em condições sem dignidade, ou têm de ir a pé para a escola e tudo isso se reflecte no rendimento do estudante. Se posso resumir estas duas primeiras questões, diria que o governo falhou em toda a linha com os jovens.

Mas os jovens não têm também uma responsabilidade? Ou tem de ser tudo o Estado? 

Claro que têm. Acredito que todo o jovem tem a sua responsabilidade e a primeira que queria salientar tem a ver com a participação na vida política do país. Tivemos uma taxa de abstenção nas últimas eleições que demonstram alguma falta de participação da juventude cabo-verdiana e acho que não vale a pena reclamar se não participam nem elegem os seus governantes.

Falta de interesse na política? 

Não interpreto dessa maneira, o jovem faz política mesmo sem se dar conta quando reclama da saúde, quando reclama da educação, quando reclama de falta de oportunidades, está a fazer política empiricamente. Mas ainda dentro da responsabilidade dos jovens, os cabo-verdianos têm de ser ambiciosos, trabalharem melhor a sua formação, pensar que é possível chegar mais longe. Serem mais pró-activos, mais interventivos. A questão do empreendedorismo é também um desafio pessoal, deve haver mais iniciativas empresariais para explorar certos nichos, mas aqui há também a responsabilidade do governo porque a questão do financiamento ainda não foi resolvida. Precisamos de políticas de verdade e não apenas no papel.

Refaço a pergunta, em vez de afastamento da política, haverá um afastamento dos partidos? 

Parece-me que neste momento há sim esse afastamento dos partidos. E penso que isso acelerou depois das últimas eleições porque houve muitas promessas que não foram cumpridas. Isso afecta o governo, mas acaba por afectar todos os partidos políticos. 

Vocês ouvem isso na rua, por exemplo, as pessoas dizerem-vos que são todos iguais? 

Sim, acabam todos por ser metidos no mesmo saco. Penso que as pessoas devem entender que os partidos políticos são o reflexo da sociedade. Ou seja, os políticos que produzimos são aqueles que a sociedade tem produzido. Os deputados que temos no Parlamento são o reflexo da nossa sociedade e só poderemos ter melhores políticos se tivermos uma sociedade melhor, se tivermos uma educação melhor, a começar dentro de casa. É um trabalho de todos e não podemos culpabilizar somente os partidos políticos.

Teme que haja espaço para o surgimento de movimentos populistas?

É um fenómeno mundial e não estamos imunes. Veja que Portugal tem, pela primeira vez, um deputado de um partido populista [André Ventura, do CHEGA], Trump foi eleito nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil, ou seja, o populismo tem vindo a ganhar expressão em todo o lado porque dizem às pessoas aquilo que elas querem ouvir. A política devia ser essencialmente nobre. 

Voltando um pouco à questão da resopnsabilidade individual, os políticos não têm também responsabilidade no actual contexto? Depois de anos de uma política assistencialista quer-se que o empreendedorismo comece de um dia para o outro? 

Não vejo que tenha havido uma política assistencialista, e falo do tempo do PAICV, penso que houve sim mais políticas sociais, porque é um partido de esquerda progressista, no sentido de se criarem mais oportunidades para aqueles que não tinham condições para aceder. Basta ver que houve uma redução da pobreza. Claro que tivemos uma mudança de fazer política, porque são dois partidos totalmente diferentes, e com a redução das oportunidades que havia perderam-se também as oportunidades. As políticas para o empreendedorismo não estão a surtir efeito porque há uma degradação social e quem é pobre fica mais pobre. Estamos a criar um fosso cada vez maior entre as classes sociais e a insegurança actual é um reflexo disso. O governo tem de mudar as políticas para o empreendedorismo. Porque não se consegue ter estabilidade nos negócios e há empreendimentos que abrem e fecham em meia dúzia de meses. 

Mas essa não é também a responsabilidade do próprio empresário? O Estado não pode estar a pagar a todos os empresários que não conseguem manter um negócio. 

Claro que sim, mas o problema é mais vasto, e quem já começou merece ser incentivado. E muitas vezes esse incentivo não é apenas financeiro, estou a falar também da formação. Provavelmente, pode-se ensi­nar os jovens empresários a negociarem as dívidas, ou a renegociar pagamentos, porque com o tempo que se demora a reagir, já as empresas fecharam há muito.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 937 de 13 de Novembro de 2019. 

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Autoria:Jorge Montezinho,17 nov 2019 10:19

Editado porJorge Montezinho  em  5 ago 2020 23:21

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